Sol: uma tentação irresistível

Os dias a partir de agora começam a ser mais longos e a escuridão tão presente em dias invernais começa lentamente a desaparecer. O inverno aos poucos também vai se despedindo e a neve que aqui havia, já não existe mais. A grama ainda é meio amarelada, mas que aos poucos vai retomando sua cor original.

Março começou com dias ensolarados e temperaturas mais amenas, em torno de 4°C. O céu está mais azul e as nuvens que insistem em ficar em Gotis City, dessa vez resolveram procurar outra vizinhança.

E ontem foi exatamente assim: um friozinho gostoso e um sol brilhante que só. Eu havia me planejado para ficar o domingo em casa, pois precisava estudar um pouco de sueco, mas quem disse que eu consegui. Acabei caindo na tentação de sair de casa e dar uma boa caminhada, já que o céu está mais azul do que nunca.

 

Com o sol finalmente dando as caras por aqui, muita gente aproveitou para ir aos parques, florestas ou simplesmente se esparramar em um dos bancos da cidade para aproveitar o dia ensolarado.

Um dos meus lugares preferidos para uma caminhada, em dias como esses, sem dúvida alguma é o Delsjöns Naturreservat. A primeira vez que visitei o parque foi em 2011 quando me mudei para Gotis City e contei um pouquinho de como foi minha experiência no post Sábado de Sol. Eu e o maridão perdemos as contas de quantas vezes estivemos nesse parque, mas sem dúvida alguma o auge é sempre na primavera e verão como mostrei no post Domingo de Sol.

Chegando ao parque já se vê que as magrelas começam a dar o ar da graça e que logo mais será difícil encontrar um bom lugar para estacioná-las.

As árvores ainda sem folhas e completamente secas, continuam embelezando a paisagem de uma forma única.

 

E algumas pessoas já começam a aproveitar esses dias mais agradáveis também para fazer piquenique, mesmo que seja na única mesa disponível em frente ao casarão Stora Torp.

Durante o percurso até a parte central do parque é possível curtir a natureza e se encantar com o estilo de casas tipicamente suecas: vermelhas e de madeira.

   

Entre árvores e folhas secas ainda foi possível ver o imenso gelo que se formou durante o inverno. Ele ainda continua firme e forte, mas com certeza não por muito tempo.

Já chegando próximo ao lago, pude ver que havia mais pessoas aproveitando o dia.

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Mas dessa vez nada de se esbaldar nas águas, porque o lago estava completamente congelado.

  

Enquanto os adultos caminhavam e brincavam de escorregar na espessa camada de gelo do lago, as crianças aproveitavam para brincar. E para quem tinha um espírito mais aventureiro, aproveitou para patinar.

E teve até mãe levando o carrinho de bebê para passear.

No início fiquei meio preocupada de pisar no lago congelado. Sabe aquelas neuras de o gelo rachar e a correnteza te levar? Pois é, foi assim que o meu nível de preocupação estava. Mas havia tanta gente curtindo o lago, que resolvi me juntar a eles. E pela primeira vez na vida eu caminhei e sentei num lago congelado. Simplesmente o máximo!

Foi uma tarde super gostosa e tão cheia de paz, que eu e o maridão sentamos nas rochas e ficamos ali um tempão admirando a natureza e a bela vista que nos cercava.

Apesar de gostar muito do inverno, nada é mais reconfortante de saber que em breve a Primavera estará por aqui e isso realmente é uma sensação fantástica!

Vi ses… hej då! ;-)

O inverno e seus apetrechos

Sempre que visito o Brasil durante as férias, algumas pessoas me perguntam se eu passo frio em Gotis City. Se eu falar que não sinto nenhum tiquinho de nada de frio é claro que estarei mentindo, mas isso só acontece na rua, porque nos lugares fechados há sempre calefação. Parênteses: eu passo mais frio em São Paulo, dentro de casa durante o inverno, do que aqui na Suécia.

E o que fazer quando se está na rua? Aí é importante que as roupas e sapatos sejam adequados a esta estação. Eu acho que vale a pena pagar um pouco mais caro por um bom casaco, que você terá por um longo tempo (desde que você não vire um balofinho), do que ter dez casacos que não valem por um.

Por isso, quando saio na rua em temperaturas congelantes, costumo me proteger em camadas. Atualmente uma segunda pele, uma blusa de lã e um casaco mais parrudo já são suficientes pra mim. É claro que tudo isso também vem acompanhado de cachecol, luvas, gorro e bota… mas isso não me assusta mais.

Além disso, eu planejo bem o que eu farei na rua para não ficar como uma barata tonta congelando. Mas e se de repente eu começo a sentir frio, eu e o maridão adotamos a tática de pegar o transporte público, mesmo que seja para percorrer apenas um ponto. O que nós fazemos com frequência também é dar um break em uma das cafeterias da cidade para se esquentar.

Nessa época as cores quentes e vibrantes caem no esquecimento e o que se vê basicamente são casacos pretos, afinal a cor emagrece, combina com tudo e eventualmente ainda esconde a sujeira… #nojinho. Mas de vez quando é possível avistar alguém usando um casaco vermelho ou até mesmo algum que lembre uma chinchila.

E justamente por causa dos inúmeros casacos pretos e da escuridão do inverno, algumas pessoas usam uma espécie de sinalizador nas jaquetas para evitar que algum motorista mais braço duro as atropele. Isso é ser coxinha ao cubo!

Enquanto os adultos se contentam com o pretinho básico, as crianças esbanjam cores em todas as roupas e acessórios. Mas o que eu acho  mais fofo de tudo são esses macacões impermeáveis, que as deixam lindas e prontas para deitar e rolar tranquilamente na neve.

E os sapatos onde ficam nessa história? Para resistir ao frio o ideal é usar botas forradas, impermeabilizadas e que principalmente tenham um bom solado, tanto para proteger do frio quanto para evitar os famosos escorregões. Porém, para mim o mais difícil é achar um sapato com esses requisitos e que ainda por cima seja bonito. Os suecos recomendam uma bota que atende essas exigências e que é super quentinha, mas nem tão bonitinha assim. Aí eu me pergunto cadê a coragem de comprar uma?

Felizmente existem outras que até chegam a ser bonitinhas, mas não tão eficientes quanto à botinha recomendada acima.

Ah, e tem também a bota que eu chamo carinhosamente de bota chinelo, porque se você tirar  a proteção da perna vai parecer um chinelo. Essa não dá para andar na neve, porque com certeza o pé ficará molhado, mas ela é um sucesso entre as teens por aqui.

Sabe aquela história que comentei no post Cenas de Inverno que neva, chove, derrete a neve e forma gelo? Pois é, nem todos os sapatos são bons para andar quando se tem essa camada de gelo. Porém, em algumas lojas e farmácias espalhadas pela cidade é possível encontrar acessórios antiderrapantes como esses aqui.

Eu até pensei em levar um desses para casa comigo, já que cai na rua uma vez e levei inúmeros “escorregas”, mas acabei desistindo da ideia, porque até agora só vi idosos utilizando.

Outra coisa que eu acho bem legal são as luvinhas próprias para telefones touch screen, já que dá para proteger os dedinhos do frio e ao mesmo mexer no celular. Simples e fácil!

Os apetrechos da molecadinha ficam por conta do “esquibunda” e dos pequenos trenós, pois com certeza a diversão é garantida.

E para aqueles que podem gastar um pouquinho mais, o trenó abaixo é ideal para os pais acompanharem seus pimpolhos em grandes emoções pela neve.

Casas, bares e restaurantes ganham um ar mais charmoso e aconchegante, porque além da temperatura agradável, essa também é a época em que mais se usa velas e luminárias, dando um toque todo especial ao ambiente.

Mas nada impede de se utilizar muitas velas coloridas e por incrível que pareçam, elas também dão um toque todo especial.

E como nem tudo são flores, uma das coisas chatas que se precisa fazer é tirar a neve da entrada de casa. Eu e o maridão não tínhamos qualquer experiência nisso, mas aprendemos rapidinho os ossos do ofício neste último inverno. A pá agora é nossa melhor amiga ou pelo menos enquanto durar a neve.

E aí toda aquela neve branca, bonita e clarinha não dura muito tempo. Ela vai se misturando à sujeira, ao sal e aos pedriscos.

E o que parecia ser limpo agora é uma lambança só.

Outra coisa chata é que nem todas as paradas de ônibus/tram têm cobertura de proteção, o que significa que muitas vezes você fica exposto enquanto está nevando. Mas aqui em Gotis City percebi que muita gente não liga para isso e em alguns casos nem utilizam gorros/tocas. A neve vai caindo no cabelo e fica parecendo fritopan. Aí todo mundo entra nos transportes, o fritopan derrete e os cabelos ficam naquele estado de calamidade. Eu, particularmente, acho isso nojento e procuro ter a minha cachola sempre protegida.

E para a alegria de muitos brasileiros que aqui estão o inverno está chegando ao fim e logo mais a cidade estará novamente coberta de flores.

Vi ses… hej då! ;-)

Cenas de inverno

Quando se fala em Suécia a primeira coisa que todo mundo pensa é sobre o quão frio essas terras podem ser. Só que durante o inverno a temperatura pode variar bastante dependendo da região do país em que se está.

Por exemplo, na cidade de Kiruna, localizada ao Norte da Suécia, a temperatura média fica abaixo de zero por cerca de 7 meses ao ano e há neve que não acaba mais. E como se não bastasse, ainda há a ausência de sol e noites infinitas durante todo esse período. Concordo que pode ser frio, escuro e até meio deprimente, mas essa é uma das cidades que se consegue contemplar um dos fenômenos mais lindos da natureza… a aurora boreal.

Já na região Sul, na cidade de Malmö, não neva tanto assim e a paisagem não chega a ficar completamente coberta. Há temperaturas negativas sim, mas a média mínima nessa época do ano é de 3°C. Porém, nessa região o sol se levanta lá pelas 8h30 e se despede com louvor por volta das 17h.

E em Gotis City como essa coisa toda funciona? Por aqui, eu diria que a cidade tem um clima bem razoável. As temperaturas também ficam abaixo de zero, mas nada que se compare com o inverno do Norte do país. Faz frio, neva, chove, derrete a neve, forma gelo, volta a nevar, chove de novo… e por aí vai. Os dias também são mais curtos e no mês de dezembro o sol se levanta depois das 8h e dá bye bye às 16h. Triste, não?

Mas os suecos não gostam da escuridão e eu também não fico fora disso. No post Toc Toc Toc! Quem bate?, mostrei um pouco de como a galera por aqui tenta aproveitar a luz do dia. Outra coisa é que Gotis City se transforma e a neve embeleza e muito as ruas e as paisagens naturais (desde que não seja aquele dia caótico de nevasca).

Numa simples caminhada dá para tirar lindas fotos de uma paisagem mais cinza (e às vezes até com um pouco de sol), aproveitar a neve branquinha e desfrutar ao máximo da claridade. E é exatamente isso o que eu faço: tiro muitas fotos!

Perto de casa no primeiro dia que nevou ficou assim.

A paisagem do parque Slottsskogen se transformou e até os patos aproveitaram para se esbaldar nas águas geladas do lago. Fala a verdade se isso não é um bumbum super potente e resistente ao frio!

O parque Trädgårdsföreningen também mudou e apesar do quiosque de guloseimas não abrir mais nesse período, os homens da manutenção continuam por ali firmes e fortes.

Pensar em se sentar em algum banco nesses parques para tomar um fôlego não tem mais a mesma graça, porque agora está ocupado pela neve.

O Delsjön não ficou para trás e até os cavalos entraram no clima da estação.

Um dos campos de mini-golfe que geralmente é lotado no verão já nem dá mais para reconhecê-lo e fica difícil saber onde começa e termina o circuito.

O quintal do vizinho ainda é o mesmo e os brinquedos das crianças continuam no mesmo lugar desde a primavera passada.

E nem mesmo o vidro dos pontos do transporte público se safou e o gelo tomou conta de toda a superfície.

Essa é uma pequena mostra do que se pode contemplar nessa estação e é claro que cada um aproveita o inverno da maneira como quer e convém. Mas vamos combinar uma coisa? Ficar 4 meses trancado no cafofo quentinho, esperando o inverno passar é que não dá, né!

Vi ses… hej då! ;-)

Toc Toc Toc! Quem bate?

É o frio! Frio

E não é que o danadinho resolveu dar as caras mais cedo dessa vez, ou seja, em pleno outono. A primeira neve aconteceu em 03 de dezembro do ano passado e foi o suficiente para deixar Gotis City em estado caótico.

Os floquinhos de neve provocaram inúmeros atrasos nos aeroportos, no sistema de transporte público (tram e ônibus) e congestionamentos nas principais ruas e avenidas. Muita gente chegou atrasada aos seus compromissos, o suficiente para deixar a galera mal-humorada.

Mas de verdade? Para quem enfrenta o trânsito diariamente em São Paulo, o que aconteceu por aqui não é absolutamente nada.

E a partir daí a temperatura foi ladeira abaixo: –5, –10, –12, –18 e bateu a casa de –20 graus! Houve dias em que a nevasca estava de matar e sair de casa dava uma preguiça danada. Onde estava a coragem numa hora dessas? Enrolada num cobertor bem quentinho!

Os canais ficaram totalmente congelados e os barquinhos que aqui se viam antes desapareceram completamente.

E os carros então? Pois é, eles ficam na rua, mesmo em temperaturas para lá de congelantes. Garagem aqui não é para os carros. Garagem aqui é para as quinquilharias, pelo menos quem tem o luxo de tê-las.

Só que depois para tirar o gelo que se forma nos vidros, somente utilizando uma pazinha apropriada para raspar tudinho. Simples assim! Ah, mas tem gente que prefere utilizar de outras táticas. Um dos meus vizinhos protege o kinder ovo dele espalhando jornal em todos os vidros, agora se isso dá algum resultado eu não faço a mínima ideia. Enquanto isso, outro vizinho prefere utilizar uma vassoura no capô e nos vidros assim que a neve para de cair. Tamanha é a minha aflição ao vê-lo fazendo isso num Volvo XC60. Pode uma coisa dessas?

Com as bicicletas a situação não é diferente, porque elas também ficam quase que jogadas no gelo.

E as ciclovias ficam praticamente abandonadas. De vez em quando um viking cheio de bravura aparece por aqui.

Mas em compensação o inverno não impede das pessoas terem uma vida normal. Nada de hibernar, porque o lema aqui é aproveitar a estação.

  • Tem gente que gosta de ir ao parque para caminhar.

  • Tem gente que gosta de se exercitar.

  • Tem gente que leva os cães para caminhar.

  • Tem gente que leva os pimpolhos para passear.

  • Tem gente que vai patinar.

  • Tem gente que vai esquiar.

  • Tem gente que cria coragem e vai pedalar.

  • Tem gente que continua perdendo as coisas.

  • Tem gente que faz propaganda para comprar uma casa… só que no Brasil.

  • Tem gente que volta a ser criança.

  • Tem gente que brinca com a neve.

  • E tem gente que não mede o perigo que corre e não tem a noção das armadilhas que podem estar escondidas numa camada de gelo, seja caminhando despreocupadamente ou fazendo folia com a turma em pleno canal congelado. Ufa! Pelo menos em uma delas os policiais chegaram e colocaram ordem na casa, enquanto a outra eu e o maridão ficamos atentos e preocupados com que poderia acontecer.

Mas o inverno ainda não parou por aqui e há mais novidades a serem compartilhadas. Ficou curioso(a)? Aguarde, porque em breve colocarei mais fotos!

Vi ses… hej då! ;-)

Semla: fazendo o seu dia mais gordinho

Semla é um pãozinho de creme de cardamomo recheado com pasta de amêndoas e chantilly e que é tradicionalmente degustado na Terça-feira Gorda (Shrove Tuesday) ou como os suecos a chamam de Fettisdagen.

Não pense que nós brasileiros não conhecemos o Fettisdagen, porque nós conhecemos sim, mas com outro nome. Tá espantado? Não se espante, porque a nós a chamamos de Terça-feira de Carnaval.

Mas qual é a relação do semla com o Fettisdagen? Segundo a tradição, esse pãozinho era a única fonte de alimentação durante o período da Quaresma, porém, com a diferença de que ele era servido no seu formato mais simples: sem recheio, sem chantilly e bem sem graça.

E olha só que interessante! Durante esse período de jejum as pessoas tiveram uma grande ideia para amenizar a falta de comida e consequentemente burlar a fome. Sabe como? Fazendo buracos dentro do pão e adicionando cremes e pasta de amêndoas. Bem espertinhos, né!

O tempo passou, a tradição se modificou e o semla se instaurou de vez com esse jeitinho calórico que só ele sabe ser. Dá para acreditar que essa belezinha aí pode chegar a ter 500 calorias! É muita caloria para uma única porção, não é mesmo?

Para alegrar os mais comilões, hoje em dia é possível achá-lo em algumas bakeries logo após o Natal e é uma das escolhas mais populares durante uma pausa para o café.

Só para se ter uma ideia de como o negócio bomba nas terras geladas, cerca de 40 milhões de semlor (plural de semla) são vendidos em toda a Suécia nesse período do ano (do pós Natal até a Páscoa). A cidade de Gotemburgo, a minha linda Gotis City, é responsável pelo consumo de 2 milhões de unidades.

Existe aqui em Gotis City até indicação dos melhores estabelecimentos para se degustar essa gordice. Portanto, se estiver pelas redondezas, tem curiosidade de experimentar e não tem medo de engordar, dê um pulinho nos seguintes lugares:

E não importa se o semla é consumido acompanhado de café/chá ou numa tigela com leite quente, pois o importante é experimentar e participar.

Confesso que ainda não degustei porque não sou muito fã de chantilly, apesar de comer só um pouquinho de vez em quando. Além disso, o vispgrädde (chantilly) sueco não leva sequer uma pitadinha de açúcar, o que me faz evitá-lo ainda mais. Porém, eu ainda não tenho uma ideia formada sobre o assunto, mas sei que as opiniões se dividem quanto ao sabor:

  • há quem ache uma delícia;
  • há quem ache comível;
  • há quem provou, gostou, mas não amou;
  • há quem provou e uma vez bastou;
  • há quem ainda não experimentou e não tem vontade nenhuma (eu!).

Mas vai que de repente uma vontade louca bata à minha porta e quem sabe no dia 12 de fevereiro, o dia do Fettisdagen, eu não me arrisque a experimentar e tire minhas próprias conclusões se realmente vale a pena ingerir tantas calorias assim.

Vi ses… hej då! ;-)