Coisas de sueco: na honestidade

Quando trabalhava na Barra Funda em São Paulo, eu utilizava diariamente o metrô da linha vermelha. O empurra-empurra e o “rala-coxa” diário eram verdadeiras maratonas para mim. Para quem passou ou passa por essa experiência, nem um pouco atrativa, sabe exatamente o que quero dizer.

E certa vez quando eu estava aguardando a plataforma esvaziar, já que não estava nem um pouco com vontade desse calor humano e dos momentos de ação, me ajeitei em um dos bancos disponíveis por ali.

Para ajudar a passar o tempo, aproveitei para devorar o livro Harry Potter e as Relíquias da Morte. Como eu sou mega fã do bruxinho eu tinha um saquinho para protegê-lo. Mas não era qualquer saquinho. Ele era de malha com desenhos na cor vermelha, super fashion e ainda por cima da IODICE. Para quem acha que eu invisto meu suado dinheirinho nessas bobagens, pode tirar o cavalinho da chuva. Na verdade é que ganhei essa belezura no desfile da marca em uma das edições do São Paulo Fashion Week, portanto a minha relíquia preferida do mundinho fashion.

Leitura vai, leitura vem e quando dei por mim, a plataforma já havia esvaziado e o pior… meu saquinho fashion havia sumido. Eu havia deixado no meu colo, mas de ficar mexendo as pernas de um lado para o outro como uma boneca de pano sem coordenação alguma, o pobre coitado caiu no chão e uma alma não tão gentil o levou embora. Fiquei tão triste, brava e decepcionada que roguei todas as pragas do mundo na pessoa que fez isso. E olha que só foi um saquinho de brinde, hein! De lá para cá comecei a tomar mais cuidado com as minhas coisas e deixar os olhos de butuca em todas as direções.

E onde eu quero chegar com tudo isso? O fato é que no sábado à noite fui surpreendida pela cena que eu e o maridão vivenciamos dentro do ônibus a caminho de casa.

Dois suecos entram e sentam. Um deles carrega uma espécie de caderneta rosa choque, contendo cartões de bancos, lojas, supermercado e o Personal Number de uma menina (esse é o documento de identificação mais importante da Suécia e que você precisa dele para absolutamente tudo se morar na terra dos vikings). Aí você pensa:

a) Xiiiii roubaram! (pensamento típico de brasileiro)

b) É de uma amiga!

c) É da namorada!

d) Ahá… tão sacaneando alguém!

e) Nenhuma das alternativas anteriores!

A resposta correta é a alternativa e. Mas afinal de contas, o que aconteceu? O que aconteceu meu caro, é que a pimpolha sueca perdeu a cadernetinha recheada de documentos e dados importantes e os suecos camaradas a encontraram caída na rua. E olha só que fofo e porque não dizer inspirador: eles acessaram do celular um site que contem os dados de todo mundo que é registrado no governo e através do Personal Number, eles conseguiram o telefone de contato da suequinha. Tudo isso só para avisá-la que a cadernetinha estava sã e salva.

Confesso que achei muito digna a atitude, sem dizer a total facilidade para encontrar alguém aqui na terra dos vikings. Seria muito bom se víssemos essa tecnologia em terras brasileiras, mas antes acho que precisamos resolver outras questões, principalmente com relação à segurança. Quem garante que dados importantes como esses, não seriam utilizados por pessoas de má índole? Mas não quero fazer desse post algo político, porque a discussão será imensa e esse não é o objetivo do Diário de uma Teimosa.

A verdade é que eu não coloco minha mão no fogo por ninguém e acho que cada um sabe de si, mas confesso que fiquei bastante surpresa e feliz com o comportamento sueco. Os dois suecos foram tão certinhos, preocupados e dispostos a ajudar que devem servir de exemplo para muita gente. Acho que essa é uma daquelas cenas que posso chamar de Coisas de Sueco.

Além disso, honestidade não cabe à nacionalidade, status social ou cor da pele, mas sim ao caráter. Se cada um de nós fizer a sua parte, com certeza teremos um mundo melhor, independente de ser com um saquinho fashion ou uma caderneta rosa choque.

Vi ses… hej då! ;-)

10 pensamentos

  1. Nossa, estão de parabéns! Isso é tão incomum para nós brasileiros que encontrar pessoas assim faz a gente ter fé no mundo.Já passei por uma dessas por aqui, quase perdi meu cartão de crédito no restaurante e qdo eu voltei, o funcionário já tinha guardado num lugarzinho onde os clientes esqueciam seus pertences e qdo voltassem estaria lá esperando por eles.

    Bjs!

    1. A gente vê tanta coisa ruim acontecendo por aí e situações simples como essas chegam a nos surpreender de verdade. Obrigada por compartilhar sua experiência aqui também. Beijos

  2. Posso dar meu depoimento ? Minha mãe comprou uma câmera digital caríssima no shopping de Oslo e quando sentou para lanchar, acabou esquecendo a sacola quando saiu do local. Chegando em casa, a constatação: havia perdido a Câmera, afinal, quem deixaria passar uma oportunidade dessas??Eu, com fé na honestidade, liguei para a loja e fui informada de que um passante havia encontrado e a máquina esperava por minha mãe. Caiu o queixo? Caiu! Achei incrível !!!
    Beijinhoo

    1. É sempre bom saber da experiência de outras pessoas. Às vezes nos “chocamos” com questões tão simples, mas que só faz com que a gente continue fazendo o mesmo. Muito legal saber da sua história aqui também. Beijos

  3. Pois é… concordo que isto está um relacionado com cultura, mas não podemos descartar o caratér, que é formado também pela educação que recebemos.Já achei coisas e devolvi. Já entrei até no facebook o dono para tentar devolver o cartão pedido… Já tive pertences que esqueci e nunca mais foram encontrados, mas também já perdi um casaco no McDonald’s da Avenida Paulista e encontrei. Acredite no ser humano minha amiga, acredite no brasileiro afinal eu e você somos parte desse povo e creia que muita gente perde coisas no trem e encontram por aqui também. O motivo da notícia dos moradores de rua ter chamdo tanta atenção acredito que nem foi tanto pelo gesto, mas pelo valor! E tenho lá minhas dúvidas se não seria notícia por aí também!.

  4. Vânia querida! =)
    Sabe que isso é uma grande diferença mesmo né? Mas pra não dizer que isso não acontece por aqui (a diferença é que é tão raro que vira notícia nacional!).
    Essa semana, em São Paulo, sua terrinha, 2 moradores de rua encontraram 20 mil reais que tinham sido roubados de um restaurante e devolveram!

    1. Ghe, super concordo com você, pois esses casos são raros e é por isso que viram notícia nacional. Tenho fé que muita gente comece a se inspirar em atitudes como essas. Será que o ser humano ainda tem salvação?

  5. Vânia, eu ainda me surpreendo com esse tipo de atitude por aqui também, mas confesso que está ficando cada vez mais raro. Uma vez eu esqueci minha mochila no tram (uma especie de bonde por aqui), lembrei assim que saltei do tram, corri, fiz sinal pra motorista que com cara feia fechou a porta na minha cara e foi embora. Eu fiquei desolada, tudinho estava lá dentro. Uma moça se aproximou e perguntou o que estava acontecendo, eu contei e ela disse que a mãe estava dentro do tram, ela ligou pra mãe, que encontrou a minha mochila e desceu no próximo ponto pra me entregar. Eu fiquei tão feliz, mas tão feliz que dei um super abraço nas duas. As duas não eram holandesas, eram duas imigrantes africanas, e o que eu mais admirei não foi nem o ato de me devolverem a mochila, mas de me ver quase chorando na rua e perguntar o que estava acontecendo. Em compensação eu tive minha bolsa roubada em uma festa privada em Copenhague, onde eu era a única não Dinamarquesa, honestidade realmente não depende de nacionalidade. A menina deve ter ficado bem feliz né?

    beijos

    1. Oi Simone!
      Por aqui na Suécia também chamamos o bonde de tram rsrs e é muito legal saber das coisas que acontecem pelo mundo, mesmo que às vezes não sejam experiências tão agradáveis. Eu imagino como você deve ter ficado feliz, pois eu teria tido a mesma reação, tanto pelo carinho das duas como pela devolução da mochila. Acho essa troca de ideias e experiências super enriquecedora, pois assim conhecemos diferentes culturas.

      Obrigada por compartilhar isso aqui no “diário”. Um super beijo!

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