Panfletos e cartazes em Gotis City

No ano passado uma amiga me pediu um help para distribuir panfletos durante o Vår Ruset, que é uma corrida destinada somente às mulheres. Eu até fiz a minha cobertura pessoal durante o evento no post Corrida das Calcinhas, mas omiti o fato de eu ter sido a garota da panfletagem.

Tudo começou quando ela precisou divulgar o espaço de beleza que estava montando na cidade e me pediu aquela força extra, que só amigos fazem um pelo outro, afinal ela contava com meu sorriso bonito, meu alto astral, meu gingado brasileiro e principalmente a minha cara de pau. Como aqui qualquer tipo de serviço é “os olhos da cara” eu topei na hora e lá fui eu dar aquele apoio moral. Na hora pensei Puxa, vai ser moleza entregar os panfletos! É só esticar a mão, dar um sorriso maroto, a galera pega e ponto final. Vamos terminar isso rapidinho. E é claro que nada disso aconteceu!

Aqui as coisas funcionam um pouco diferentes do que eu havia imaginado, pelo menos em Gotis City é assim. Já vi alguns pobres coitados no shopping, nos pontos mais movimentados da cidade e nos parques fazendo esse tipo de trabalho e sempre achei que o povo era lerdo demais, porque ninguém pegava os panfletos. Eu na minha santa ingenuidade achei que ia arrasar mostrando  como é que se faz. Mas quando tive essa experiência no parque Slottsskogen é que percebi que fazer isso é ultrapassar o limite do outro. Nenhum sueco gosta de ter seu espaço invadido, por mais simples que seja a ação. E simplesmente esticar o braço e “enfiar” o panfleto na cara deles é realmente ultrapassar a linha imaginária do limite.

Estávamos em três meninas no parque fazendo essa ação sem fim e a mais descolada abordava as pessoas. Na tentativa que as pessoas pegassem os panfletos, a minha amiga precisava pedir um minutinho de atenção, explicar do que se tratava, rezar para que alguma sueca tivesse pena de nós e finalmente entregar o panfleto. Só que perdemos as contas de quantos “não” ouvimos e o que prometia ser rápido, acabou levando uma eternidade. Acabamos perdendo a paciência e partimos para o plano B. E qual era? Nada de jogar no bueiro, porque somos civilizadas e limpinhas! Ao sairmos do parque decidimos distribuir os panfletos nos carros estacionados. Provavelmente, muita gente deve ter nos xingado, mas foi a única saída que encontramos para não voltarmos com as mãos cheias para casa e assim evitarmos qualquer contato pessoal.

Outra questão são os cartazes. Aqui é considerado ilegal colar cartazes nas ruas, seja em postes, lixeiras, muros, fachadas de edifícios e armários de energia, ou seja, não pode!

O governo de Gotis City resolveu implantar em 2012 uma forma de reduzir a poluição visual. Sabe como? Espalhando nos principais pontos da cidade o que eles chamam de anslagstavla, que significa quadro de editais. O objetivo nada mais é que deixar a cidade limpa e bonita!

Basicamente quem quer divulgar shows em clubes, exposições, reuniões e demonstrações, tem de afixar o cartaz nos lugares certos. Parece que essa campanha reduziu bastante os cartazes ilegais e diminuiu a poluição visual.  Eu não tenho ideia de quanto custa essa operação, mas acredito que não seja nada de extraordinário já que estamos falando de uma cidade com apenas 500 mil habitantes.

Há funcionários que dão uma geral três vezes por semana e retiram os cartazes que foram afixados ilegalmente. E os cartazes que estão afixados na anslagstavla são retirados uma vez por semana. O problema mesmo fica por conta do pouco espaço, pois a galera não se importa e vai colocando um por cima do outro.

E tem mais, apesar de ser proibido colar os cartazes ilegalmente, isso não viola nenhuma lei sueca, mas os infratores precisam desembolsar 1.000 coroas (mais ou menos R$ 333,00) para pagar a multa. O responsável também fica com um registro criminal, mas nada assim algo para perder as noites de sono. Pelos registros policiais as notificações ilegais não excederam mais do que 10 por ano. Coisa pequena mesmo.

Por enquanto existe pouco mais de 20 unidades de anslagstavla e que estão distribuídas principalmente no centro da cidade, como em:

  • Haga

  • Vasagatan

  • Järntorget

  • Korsvägen e Slottsskogen

 

Com apenas poucos painéis no centro já se vê o resultado, porém, ainda há um longo caminho a ser percorrido para se chegar à perfeição. Eu torço para que essa ideia pegue e que as pessoas se conscientizem cada vez mais da importância de preservarem o meio em que vivem.

Vi ses… hej då! ;-)

 

6 pensamentos

  1. Vânia, faz tempo já que estou pra comentar que gosto do teu blog. E também gostei muito de Gotemburgo. Presto serviço ao Clube Pequeninos do Jockey, por meio do qual conheci seu site pessoal. Me divirto com suas descobertas antropológicas urbanas. Felicidades!

    1. Oi David!
      O post que fiz sobre um dos times “Pequeninos do Jockey” fez o maior sucesso aqui no blog. Você não imagina como me sinto lisonjeada de receber esse carinho dos leitores. Muito obrigada por me acompanhar e por se divertir.
      Um grande beijo!

  2. Vania me imagino nesse lugar…. Amo tudo organizado e sem poluição visual. Amei cada detalhe…. que nós brasileiros possamos aprender um pouquinho com os suecos. Amei!!!!!

    1. Oi Alice!
      Eu também não gosto de poluição visual e achei bem bacana essa iniciativa aqui em Gotemburgo. É claro que sempre tem algum “fanfarrão” tentando burlar o sistema, mas acho que é fácil mais controlar essa questão numa cidade com apenas 500 mil habitantes do que com quase 12 milhões, né? 🙂
      Eu não sei como isso funciona nos bairros mais afastados, mas pelo menos no centro da cidade está funcionando.

  3. Uma bagunça organizada, digamos assim, né? rs Mas concordo… poluição visual é triste em cidades com paisagens tão bonitas. Em SP não tem mais outdoors. Aqui na Inglaterra eu vejo muitas propagandas em carros, alguns entregam panfletos, mas nada de punição.

    Kisu!

    1. Mais ou menos por aí viu rsrs… uma bagunça organizada!
      Eu gostei da iniciativa do governo de Gotemburgo em deixar a cidade mais limpa e bonita e isso só surtiu resultado, justamente por ser uma cidade menor. Não sei se essa questão de afixar cartazes, num local específico, funcionaria em SP. Na minha opinião a lei “Cidade Limpa” surtiu efeitos positivos sim (mesmo sabendo que muita gente é contrária à ideia), mas sabemos que as punições nem sempre são efetivas.
      Quando eu estive em Londres no ano passado eu vi que o principal alvo das propagandas são os taxis e alguns eu até achei bem charmosos, viu! Mas ainda acho que a poluição visual deveria ser bem menor em todos os cantos do mundo.
      Puss!

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