Kräftskiva: a festa do lagostim

O mês de agosto é considerado pelos suecos como o mês da Kräftskiva, que significa Festa do Lagostim ou Crayfish Party.

Um pouco da história

O lagostim antes de ser sinônimo de festa nas bandas de cá, também já foi considerado um importante remédio. Isso mesmo, remédio! Uma das primeiras anotações sobre o lagostim é de uma receita que data de 1522, onde um cientista sueco recomendava lagostim dissolvido em vodca para tratamento da cólera. Só que faltou mencionar um pequeno detalhe. E como tratar a cólera em pessoas alérgicas a esse tipo de alimento? Pois é, não dava.

Já durante a Renascença o lagostim foi reinventado pela cozinha francesa. Ficou tão caro e cheio de frescura, que apenas pessoas mais endinheiradas, esnobes e frescurentas o consumiam. O lado bom, é que por causa desse refinamento dos franceses, a pesca do lagostim acabou se tornando uma importante fonte de renda em muitas partes da Suécia.

Kräftskiva: a festa do lagostim

Durante o ano todo e a qualquer hora podia-se ter à mesa um delicioso lagostim. Fazendo chuva ou fazendo sol, o lagostim estava lá. Só que no século 19 devido à pesca desenfreada, o consumo exagerado e a exportação rolando solta para outros países da Europa, o lagostim quase sumiu de vez do mapa. Com essa sombra pairando sobre a cabeça dos suecos, acabou-se introduzindo algumas restrições para evitar a extinção dessa iguaria, sendo uma delas a proibição da pesca no período de 10 de novembro a 8 de agosto.

Algumas regras continuam até hoje, mas agora o lagostim fresco tem seu espaço dividido com as versões congeladas, que vêm de países como Turquia, Espanha e China e que lotam as geladeiras nos supermercados durante todo o ano.

Kräftskiva: a festa do lagostim

A tradição

A Kräftskiva é uma festa tipicamente sueca e que marca o fim do verão nas terras geladas. Nessa festa, basicamente, as pessoas se reúnem para comer, beber e ser feliz. Geralmente essa reunião acontece ao ar livre, mas nada impede de ser dentro de casa também, afinal quando o mau tempo surge, as adaptações precisam ser feitas para que a diversão continue.

Essas festas também são barulhentas! E por quê? Porque são regadas a muita cantoria e seguidas pelo consumo de uma bebida alcoólica, diga-se de passagem bem forte, chamada snaps. O consumo de álcool durante essas festas é tão elevado, mas tão elevado, que a comida em si que deveria ser a atração principal, aparece apenas como coadjuvante.

O lagostim é servido frio e pode acompanhar um buffet contendo pão, torta de cogumelos, o Surströmming (um peixe podre enlatado), queijo (especialmente da região de Västerbotten) e saladas. E detalhe: come-se com a mão mesmo e sem nenhum sinal de refinamento.

Quase ia me esquecendo. Os acessórios estão mais do que presentes nessa comemoração. Podem ser encontrados chapéus de papel num estilo mais cômico, toalhas de papel, lanternas de papel com a lua sorrindo e o mais importante, os babadores de papel. Resumindo: tudo de papel, simples e fácil de limpar!

Kräftskiva: a festa do lagostim

Comendo lagostim pela primeira vez

Esse ano eu fiquei bastante curiosa para ver ao vivo o que rolava na Kräftskiva. Para matar essa curiosidade dei uma sapeada nos restaurantes de Estocolmo que estavam participando desse festival de comilança. Conferi os restaurantes mais recomendados, os cardápios mais atrativos e vi que os preços estavam lá nas alturas, ou seja, totalmente fora da minha realidade. O buffet chegava a custar mais de 500 coroas suecas, o que dá por volta de R$ 170 por pessoa. Imagina, pagar muitos dinheirinhos por algo que eu viesse a não gostar. É óbvio que desisti da ideia.

Até o dia em que eu e o maridão fomos convidados para um jantar, onde o lagostim seria servido para uma pequena degustação. Eu sei que lagostim tem no Brasil e que talvez isso não seja novidade para a grande maioria das pessoas, mas como seria minha primeira vez, acabei ficando novamente entusiasmada em poder experimentar e finalmente matar a minha curiosidade. Mas que a verdade seja dita, a curiosidade consistia muito mais no ritual da festa do que pelo fato de provar a iguaria em si.

Kräftskiva: a festa do lagostim

A anfitriã nos deu uma forcinha extra e nos ensinou o passo a passo. O primeiro deles foi colocar um babador, já que corre-se o risco de espirrar o caldinho para todos os lados. Fora isso, há todo um ritual e perde-se muito mais tempo descascando o próprio coitado do que o comendo em si, já que o bichinho precisa ser desmontado por partes. Provavelmente deve existir toda uma etiqueta para comê-lo, mas vou tentar relembrar como a minha querida amiga sueca me ensinou. Primeiro arranquei os bracinhos, depois quebrei as patas e comi meio centímetro de carne que estava ali escondidinha.

Kräftskiva: a festa do lagostim

Depois precisei dar uma torcida na casca mais dura do corpo para tirar a parte de cima. Tirei a cabeça e antes de continuar o desmembramento adivinha o que tive de fazer? Sugar o suco do lagostim (cadê o glamour nessas horas?). Olha, eu fiz, mas não gostei não. Achei meio estranho e fiquei com sabor meio esquisito na boca. O próximo passo foi puxar um fiozinho que tem por ali com bastante cuidado, pois esse fio nada mais é que o intestino do lagostim. Imagina se o dito cujo estoura? Aí sim a m- -da estaria feita. A Kris me disse que poucos conseguem acertar de primeira. Não sei ao certo, mas fiquei com tanto medo de comer cocô, que fiz bem devagarinho e voilá… acertei de primeira. Só faltei soltar um “não contavam com a minha astúcia”, mas me contive já que era a primeira vez que estava na casa dela. E por fim tirei a carne que estava ali e comi.

Olhando parece que tem bastante carne, mas na verdade é bem pouca. Eu comi apenas dois lagostins e olha só o meu prato como ficou.

Kräftskiva: a festa do lagostim

Não cheguei a participar realmente de uma legítima festa do lagostim com cantorias e bebidas, mas gostei da experiência. A carne é até gostosinha, mas o ritual… hum… nem tanto. Acho que lá no fundo fiquei com dó mesmo de ver o bichinho inteirinho ali me olhando. Agora, se um dia eu participar dessa festa 100% sueca, acho que eu vou tentar ficar somente com a cantoria e os snaps.

Será que é por isso que o pessoal enche tanto a cara assim? Vai saber!

Vi ses… hej då! 😉

23 thoughts

  1. Olá Vania meu nome e Pricila Modesto, achei sei blog porque estava pesquisando em português sobre o que era Crayfish Party, comecei meu blog ha 2 semanas e precisei usar uma parte do seu texto como referencia, achei super bacana toda sua explicacao e experiência! Vou deixar o meu blog abaixo se tiver um tempinho para ver o post eu iria adorar, e se eu tiver feito alguma coisa errada na hora de falar da fonte e voce tiver alguma dica para me dizer será bem vinda, como eu disse so tenho o blog ha 2 semanas. Muito obrigada! beijinhos

    1. Olá Pricila!
      Poxa que legal, bem-vinda à blogosfera. De cara já te desejo sucesso nessa nova empreitada. Fiquei feliz em saber que o post te ajudou de alguma forma. É legal saber como cada cultura encara essa comemoração, né? Vou dar uma passadinha no seu blog. E obrigada por compartilhar o texto.
      Grande beijo para ti!

  2. Ai que delícia de festa! Eu nem gosto de lagostim não, magina viu? rssss Lembro que quando eu morava no Japão, na época de chuvas aparecia muito lagostim no meio da rua. Ficava tentando imaginar de onde vinham elas já que o mar ficava a km de distância de casa. Elas se transportavam pelos arrozais (que são piscinas praticamente), mas são bem diferentes desses lagostins.

    Kisu!

    1. Então Bah, essa festa tá excelente pra ti. O que te de lagostim pra comer, você não acredita. Pena que o pessoal se interesse mais pela bebida.
      Agora, que história é essa de lagostim no meio da rua? Eu acho que eles estavam fugindo de algum cativeiro de um japonês doido, isso sim! 😉
      Puss!

  3. Vania, se quiser participar de uma festinha animada, sinta-se convidada para o próximo ano. Aqui em casa já é tradição. Todos os anos comemoramos o Kräftskiva e o Midsommar com muito snaps e muita caipirinha, claro!

    Seja bem vinda!

    1. Ka, olha que eu vou aceitar esse convite, hein?! Com certeza precisarei de doses extras de snaps para conseguir encarar novamente o lagostim haha.
      Se eu aparecer de surpresa na sua casa no ano que vem, você já sabe que o seu convite ficou gravado em minha memória!
      Puss!

    1. Vixi, nem pensar em participar de uma festa dessas, né?
      Faremos assim, no próximo ano você me visita, participamos da festa e “bebemoramos” juntas. Que tal? 😉
      Puss!

  4. Oi Vânia! Pelo que você relatou, o bichinho fica mesmo em segundo plano, acho que as pessoas o usam como desculpa para encher a cara, kkkkkkkk, rs…rs… mas é bem interessante a história que vem com o lagostim :-). Por aqui, a hora é de comer as comidas sazonais do outono, principalmente a carne de caça, que eu adoro!!!
    Pois é, ano que vem tem mais lagostim :-). Bjsss

    1. Totalmente em segundo plano Sandra! O interessante é que a desculpa para encher a cara está até confirmada em livros sobre as tradições suecas, dá para acreditar nisso? 😀 Pois é, a bebida vem em primeiro lugar. Sabe que eu nunca comi as carnes de caça. Mas tem uma explicação… pura dó! Você poderia fazer um post sobre isso, não? 😉
      Puss!

  5. Oi Vânia!
    Como sempre, é interessante saber a história detrás das tradições! Comer lagostim é de facto trabalhoso e no final não há muito a comer, hahaha. Mas é bastante saboroso 🙂
    Beijos

    1. Sou suspeita para falar, mas eu adoro ler e escrever sobre as histórias. Acho que já deu para notar, né?! Eu realmente achei a carne bem deliciosa e até gostaria de experimentar novamente, mas para mim o que pegou mesmo foi o ritual, porque fiquei com muita dó de ter que “massacrar” a carcaça do bichinho para comê-lo. Judiação!
      Puss!

  6. Muito legal esse seu post!!!! Aprendi sobre a tal festa. Nunca imaginaria o tal lagostin como remedio!!!!
    Fui em uma bem sueca, com canturias e td mais… Diferente de vc, comi muito e ameiii a experiencia!!! Só parei qdo cortei a mão na casca do bichinho!!!! Cortei feio, não parava de sangrar…. Demorou alguns dias para começar a cicatrizar…. Kkkk
    Hej då!!!

    1. Que bom Dani que você teve a oportunidade de participar de uma Kräftskiva . É isso mesmo, cair de cabeça na cultura faz muito bem e só tem a agregar. Vixi, se você gostou tanto assim, já estou vendo que ano que vem terá repeteco, hein?! Mas não esqueça de tomar cuidado para não cortar a mão novamente 😉
      Puss!

  7. Do jeito que você descreveu, me lembrou a vez em que uma amiga da minha mãe nos levou numa praia perto de onde minha vó mora, lá no Pará, pra comer caranguejo. É mais ou menos assim mesmo; você sai despedaçando o bichinho todo, chupa aqui e ali e dá umas bicadinhas e pronto, já pega outro. Na minha família, o pessoal adora comer essas coisas, eu olho e fico com dó também! Hahahaha. Fico só no peixe mesmo.

    1. Então, durante o jantar a anfitriã chegou a me perguntar se eu sabia como comia caranguejo, pois faríamos do mesmo jeito. Como a minha resposta foi negativa, tive de prestar bastante atenção de como ela fazia e seguir o passo a passo direitinho. Ainda bem que deu tudo certo. 😀
      Agora, todo bichinho que é servido com “carinha” me dá um aperto no coração de ver. Acho que a idade está me deixando meio mole rs.
      Puss!

  8. Nossa, que complexo comer isso! Nunca comi, e acho que vou precisar de um curso pra aprender… hahaha! Ainda bem que vc já adiantou algumas coisinhas 😉

    beijo!

    1. Bota complexo nisso Olivia! Nem eu esperava que seriam tantos passos assim e para quem é iniciante como eu requer certa habilidade, viu? 😀 Mas valeu demais a experiência.
      Puss!

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