Natal na Suécia

O mês de dezembro chega e com ele o espírito natalino renasce. Apesar do protestantismo reinar por essas bandas, a galera curte e muito comemorar o Natal, afinal é tempo de montar a árvore, decorar a casa, trocar presentes, reunir a família, os amigos e comer coisas gostosas.

Para tudo! Amigos? Coisas gostosas? Hum, nem sempre, ainda mais se você estiver na Suécia.

Ser convidado a participar da ceia com uma legítima família sueca é quase como ganhar na loteria. Não importa se você é recém-chegado ao país, se a família está distante ou se você não tem com quem passar essa data, porque ninguém se comoverá com isso. Natal é sinônimo de família e não de amigos. Agora se você é um amigo super-mega-hiper-blaster íntimo aí as coisas mudam de figura.

Eu diria que o Natal, além de ser uma das datas mais importantes e celebradas no país, competindo ali pau a pau com a festa do Midsommar, ainda é considerado como um dia para relaxar, com exceção de quem está preparando a ceia onde a tranquilidade passa bem longe, né? Porém, ninguém ficará por horas e mais horas fazendo o circuito geladeira-pia-fogão para preparar o banquete, pois algumas famílias mais espertas optam por comprar muita coisa já pronta. Simplicidade e facilidade são as regras do jogo nessa data tão especial.

A famosa ceia de Natal é chamada pelos suecos de Julbord. E para devorá-la não é necessário esperar até o dia 24, pois ela começa a ser servida desde o início do mês em restaurantes, confraternizações de final de ano e até mesmo nas lojas da rede IKEA.

Os pratos têm todo aquele teor de “culinária simples do campo”. Gostoso? Um pouco! Diferente? Nem tanto! E por quê? Porque na minha cabeça Natal é sinônimo de se empanturrar de coisas deliciosas, que geralmente só vemos e/ou comemos nessa data. Ou seja, o que se come nessa ceia não é diferente do que se come durante todo o ano. Não espere ver o peru de Natal fazendo glu glu, uma farofa colorida e molhadinha, aquele salpicão que só sua mãe sabe fazer e nem a sobremesa dos deuses da sua tia.

A Julbord é composta por peixes, presunto, almôndegas de carne, salsichas, costeletas de porco, carne de veado, patê de fígado, batatas cozidas ou gratinadas, ovos cozidos recheados com camarões ou caviar, beterrabas, pepinos, queijos, molhos e vários tipos de pães.

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Diferente? Acho que só a carne de veado mesmo. Tudo isso acompanhado de algumas bebidas para dar aquela animada na festa, como o glögg (que é um vinho quente com especiarias, amêndoas e passas e que pode ser alcoólico ou não), julmust (que em minha opinião é uma das coisas mais horríveis que já experimentei, pois lembra o sabor de uma coca-cola sem gelo com canela), schnapps (que é uma bebida destilada de alto teor alcoólico) e cerveja preta.

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Para a sobremesa não há grande variedade, pois é servido arroz doce com molho de frutas, bolo de açafrão com chantilly e amoras, pepparkaka (biscoitos de gengibre, cravo e canela), tangerinas, nozes e frutas secas. E só!

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Ah, mas não posso deixar de mencionar outras tradições que fazem parte da festa. Uma delas é festejar o período do advento, acendendo uma vela a cada domingo das quatro semanas que antecedem o Natal.

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A celebração de Santa Lucia, no dia 13 de dezembro, também faz parte do calendário, onde escolas, igrejas, restaurantes, shoppings etc. atraem o público de todas as idades para ver os lindos corais. Corais esses que são formados por meninas vestidas de branco e a mais bam-bam-bam da turma traz na cabeça uma coroa decorada com velas. O charme é quando as luzes se apagam, as meninas entram cantando e você só consegue ver os rostos e parte do vestido branco todo iluminado. O som é alto e muito bonito, que desperta encantos e arrepios.

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Também é a época de comer lussekatt, um pão de trigo com açafrão no formato de gatinho e que leva apenas duas passas para decorar.

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A decoração está presente em todos os lares suecos. Óbvio! Mas o que se destaca nessas terras são as luminárias do advento colocadas nas janelas das casas e a estrela de Davi que pode ser pendurada à janela ou utilizada como abajur. E aí a gente percebe como a luz nessa época do ano é um fator importante para iluminar a escuridão e tentar assim afastar a tristeza, já que o anoitecer agora ocorre às 3 horas da tarde.

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Outra coisa é que na tarde da véspera de Natal, os suecos assistem a uma seleção de desenhos da Disney chamada Kalle Anka och hans vänner önskar God Jul (O Pato Donald e seus amigos desejam um Feliz Natal). Dá para acreditar que esse assunto é levado tão a sério, que os desenhos são transmitidos até em restaurantes e navios? TUDO e TODOS param o que estão fazendo para ver OS MESMOS EPISÓDIOS todo ano. E acredite, essa tradição é transmitida pela televisão sueca, nada mais e nada menos, desde 1960. Portanto, não se admire caso encontre alguém que saiba todos os diálogos de cor e salteado.

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E é claro que eu não poderia deixar o bom velhinho de fora. Se eu falar que ele é nanico, tem nariz de batatinha, usa roupa verde e ainda por cima é chamado de duende, você acredita?

Papai Noel sueco é assim e leva o nome de Jultomte (Jul = Natal e tomte = duende). Estranho, né?

Mas como eu me encaixo nessa história toda?

Eu diria que numa mistura das duas culturas. E por quê? Porque eu me rendi e decorei a casa com as luzes do advento. Sim, é verdade, fui “copiuda” mesmo! O ambiente fica mais bonito, agradável, clean e você sente que é Natal de verdade e não um carro alegórico na Sapucaí com pisca-pisca para todos os lados.

Fora isso, eu pirei no sabor do glögg e agora preciso tomar pelo menos uma vez por semana, justamente porque me faz lembrar o vinho quente das festas juninas brasileiras. Eita barbaridade sô, que saudade disso!

Agora, a Julbord acho sem graça. Comer beterraba, pepino, ovo cozido e salsicha em plena ceia de Natal, me desculpe, mas isso eu dispenso. Ceia de verdade para mim é a brasileira.

Esse será o primeiro ano que não passarei o Natal com a família no Brasil e terei a oportunidade de conferir com meus próprios olhos como as coisas realmente se desenrolam por aqui. Também não estou esperando nenhum convite de um bondoso sueco para me acolher. Mas uma coisa é certa, estarei cercada de amigos que gosto e o melhor é que terei uma ceia legitimamente à brasileira. Tem coisa melhor que isso para encerrar o ano? Acho que não!

E bem ao estilo sueco desejo para todos vocês um God Jul (Feliz Natal)!

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Esse texto foi publicado originalmente no site Brasileiras pelo Mundo.

Vi ses… hej då! 😉

10 thoughts

  1. Tá bom. Já que é fazer uma teimosa ter sua Noite Feliz, tenha um excelente período de boas festas. E boas postagens em 2014 e em todos os anos seguintes. Felicidades pra vc e toda a sua família daí e daqui.

    1. David! Sim, você fez uma teimosa feliz…. Eeeeeeeee \o/
      Boas Festas para você e toda a sua família também.
      Obrigada pelo carinho e pelas vibrações positivas. Pode ter certeza de que desejo em dobro para você. 😉
      Puss!

  2. Quem é o bocó que vai dizer que seu blog enjoa?
    Vanoca, já disse lá mas merece ser repetido: seus textos só fazem melhorar e não é atoa que o Brasileiras pelo Mundo tenha se rendido ao seu encanto. Vc conta sobre esse país com um amor e bom humor que dão gosto.

    Beeeeijoca

    1. Paulinha, sua linda! Fazendo o meu dia mais feliz, né? Gosto tanto dessa “ô essa menina” que nem sei explicar o quanto hehe. Pode ter certeza que você sempre deixa uma teimosa feliz quando deixa um comentário aqui no diário.

      O convite para participar do BPM realmente foi uma surpresa e eu não esperava por essa oportunidade. Fora que estou conhecendo outras culturas e assim desmistificando alguns mitos por esse mundão afora.

      De verdade? Gosto muito desse país que vivo, mesmo não sendo perfeito. Mas resolvi encarar as coisas de uma forma mais positiva, tentando tirar o máximo de proveito das experiências que estou tendo, afinal isso será para a vida toda. Manter o bom humor, me ajuda a não entrar num círculo vicioso de reclamações, porque eu acredito que pensamentos negativos só atraem coisas negativas e disso eu quero distância. É claro que às vezes tenho meus altos e baixos também, mas felizmente isso passa rapidinho, porque olhar para frente é o mais importante.

      Muito, mas muito obrigada mesmo por ser tão carinhosa comigo.

      Puss!

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