Mudança de Hábitos

Mudar de país envolve muito mais do que ter um novo endereço, novos amigos, um novo idioma para aprender e uma nova jornada a ser percorrida. Mudar de país também significa incorporar diferentes hábitos e costumes da nova cultura, que podem ser fascinantes ou cheios de esquisitices.

Me recordo que com apenas alguns meses e trá lá lá morando na Suécia certos hábitos já faziam parte da minha rotina, enquanto que outros tive de dar algumas boas bolas fora para entender que isto aqui, ô ô, não era um pedacinho de Brasil iá iá.

E foi o caso do beijo, abraço ou aperto de mão. Parece brincadeira de criança, mas essa era a dúvida que pairava sobre a minha cabeça ao ser apresentada a um sueco. Não sabia se beijava, se abraçava ou se estendia friamente a mão. Claro, que como boa brasileira que sou eu partia logo para o beijo e pra aquele abraço. Isso aconteceu uma vez. Duas vezes. E a terceira vez foi burrice mesmo.

Pois é, eu ficava no vácuo. A boca já fazendo bico, pronta para tascar um beijo e os braços abertos para mostrar toda a minha cordialidade, eram desfeitos no ar nos primeiros três segundos da apresentação. Aprendi na marra que beijo é reservado para a intimidade e que no dia a dia ou em uma apresentação não se beija ninguém. Um simples aperto de mão é mais do que suficiente. Se a amizade florescer os abraços estão liberados.

Tímidos no início e depois apertados. Mas para não cair mais em situações desconfortáveis, como as que vivenciei, agora espero a atitude do outro. É uma tática infalível e livre de gafes.

Deixando os beijos e abraços de lado, passei a me preocupar com as meias que uso, coisa que nunca havia feito na vida. Isso porque um dos hábitos, que eu acho bem bacana por sinal, é deixar os sapatos na entrada da casa. Ninguém mandará você tirar. Claro! Mas por uma questão de higiene e respeito, por favor, tire-os! Sueco faz isso, seja em casa ou visitando alguém. Portanto, usar aquela meia furada, esgarçada e suja, nem pensar.

Capricho é bom nessas horas e quanto mais descolada a meia for, mais presença irá marcar. Vale tudo para homens e mulheres: coloridas, com bichinhos, bolinhas, listradas, estampadas, longas ou curtas. O que manda é a criatividade! Para mim o único problema é quando o chão é muito gelado da residência e eu tenho de ser firme até o final da visita para suportar os dedos congelados. Felizmente, isso aconteceu apenas uma vez comigo. Agora o arsenal de meias vem se multiplicando cada vez mais.

Continuando ainda no quesito “visitas”, quando sou convidada por um sueco para um almoço, jantar ou fika na residência dele, significa que eu tenho de levar um presente. Nada caro. Coisa simbólica mesmo. Ou como eu diria apenas uma lembrancinha, mas de coração. Nesse caso a melhor opção são as flores. São bonitas e agradam qualquer um. Mas vinho, bombons, livros ou qualquer outro objeto são bem vindos. É uma forma de dizer obrigada pelo convite.

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E tem mais, o convite terá de ser retribuído. Eu que nunca me liguei com essas coisas em terras brasileiras (com exceção de datas especiais), hoje me vejo preocupada com isso. Em me produzir para o jantar e correr atrás do presente. Ou no caso de ser em minha residência, fazer o convite formal com mais de duas semanas de antecedência (em alguns casos um mês), planejar o cardápio (entrada, prato principal, sobremesa, bebidas e café), ver as restrições alimentares, deixar a casa nos trinques, a mesa decorada, etc.. É um verdadeiro planejamento e uma maratona cheia de emoções para uma data nem sempre especial.

A pontualidade é um costume que passei a dar muito mais valor. Brasileiro tem fama de não cumprir horários. E cá entre nós, é verdade, né? Porém, por essas bandas ser pontual não é ter um diferencial, é simplesmente uma questão de respeito. Não importa se é uma entrevista de trabalho, um compromisso de negócios ou um encontro com amigos na cafeteria. Afinal, horário é horário e ponto. Os mais tradicionais chegam aos compromissos com 15 minutos de antecedência e eu tenho de confessar que aderi a isso também, pois me sinto mais confortável com a situação e assim evito um olhar, talvez, de reprovação.

Outro hábito é o “do it yourself”. Comecei a fazer as coisas sozinha, assim como a maioria dos suecos fazem. Como os serviços em geral são caros, o esquema é colocar a mão na massa e não ter medo de se sujar. Foi assim que eu salvei uma boa grana quando eu mesma pintei o meu apartamento. Minhas unhas quebraram e as cutículas ficaram um horror, mas em compensação só o que economizei com mão de obra, consegui trocar o meu sofá. E depois disso aprendi a usar o martelo, a furadeira, a serra, a montar armários e por aí vai.

Fora isso, tenho colocado o meu lado decorativo para fora. Nunca levei jeito para isso, mas acabei me rendendo aos enfeites nas janelas. Ter uma janela vazia pode dar a impressão de se ter uma residência sem graça. A explicação é que a grande maioria das janelas possuem em seus parapeitos plantas ou flores, abajures, velas e castiçais ou qualquer outro objeto decorativo. E detalhe: todos estão virados para a rua para chamar a atenção de quem passa. E hoje a minha janela é assim, de puro charme sueco.

Atualmente passei a tomar mais água. Aí você me pergunta? Tá, mas e o que tem de mais nisso? E eu respondo. Não é qualquer água. Ela é limpa, saborosa e dá para tomar sem medo de ser feliz, seja em casa, restaurantes ou até mesmo na rua. Essa água é da torneira.

Adquiri outros hábitos como utilizar a bicicleta não apenas para o lazer, mas para fazer supermercado, trabalhar, estudar, ir ao cinema, restaurante, festas e o que mais me der na telha. Tudo isso em apenas duas 2 rodas. E o carro? Tá aí uma das coisas de que não sinto falta, até porque o dia que não quero pedalar eu utilizo um transporte público de boa qualidade e que me leva para onde eu quiser.

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Eu poderia acrescentar mais itens a essa lista, mas mesmo que alguns novos hábitos façam parte da minha vida, sejam aqueles que eu gosto (os quais não abrirei mão) e outros que eu aprendi a aceitar, o mais importante pra mim, é ser feliz. Não importa se é na Suécia, no Brasil ou na Cochinchina.

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Esse texto foi publicado originalmente no site Brasileiras pelo Mundo.

Vi ses… hej då! 😉

8 thoughts

  1. Adorei o texto Vânia!
    Acho que hoje as escolas de idioma por aqui já pegam bastante no pé dos alunos quanto aos cumprimentos fora no Brasil – já que aqui é tudo caloroso demais haha. Mas mesmo assim deve ser estranho chegar para cumprimentar alguém e não dar nem um beijinho rs. Não sei se isso é coisa se curitibano, mas por aqui o beijo no rosto me parece menos íntimo do que o abraço !
    Agora uma coisa que gostei de saber é sobre o fika, acho que eu me adaptaria muito bem à essas pausas! haha

    Beijos,
    Ana.
    Nk Cherry

    1. Ana!
      Que bom que você gostou do texto, pois fico feliz da vida com seu comentário. 😀
      E como é estranho se adaptar a nova forma de cumprimentar, principalmente no início. Mas com o tempo a gente se acostuma e os beijinhos acabam ficando só entre os brasileiros mesmo.

      Eu que nunca curti tanto café, depois que conheci ao ritual do fika virei fã de carteirinha. Por aqui existe até verbo para isso “vamos fikar?” rs.

      Puss!

  2. Percebi que as coisas na Alemanha sao bem parecidas… Mas por aqui (pelo menos o pessoal que eu conheco) geralmente leva a sobremesa quando é convidado para um jantar. Já fiz algumas coisinhas brasileiras (como pavê) para jantares que fui convidada. Eles gostam bastante. Por aqui as pessoas costumam comprar água para beber. Mas o resto é tudo igual rs.

    Engracado, eu sempre digo que eu e meu namorado somos pessoas diferentes dependendo se estamos no Brasil ou Alemanha. Pois se os costumes sao diferentes você também muda a forma de fazer as coisas. Nao acho legal ficar batendo cabeca e querendo impor seus hábitos se você está em outro país. É preciso mudar sim, ser outra pessoa, mesmo numa estadia curta.

    Beijos

    1. Oi Vanessa, muitas das tradições são bem parecidas ainda mais quando muitas delas foram importadas da Alemanha :-). Até hoje apenas uma pessoa me pediu para levar a sobremesa, depois que eu perguntei se ela precisaria de algo. Mas os demais convites sempre foram com cardápio completo. E aí não teve jeito, tive de abraçar a cultura local, não apenas por respeito, mas por gostar de muitos costumes.

      Concordo contigo que quando estamos em outro país precisamos respeitar os hábitos locais. É uma pena que muita gente não pensa assim na Suécia, pois já presenciei cada coisa. Respeito é bom e todo mundo merece, não é mesmo?!

      Puss!

  3. Oi Vânia,
    Li o texto completo lá e gostei muito. Dei algumas risadas pq tb consegui visualizar-me em situações semelhantes, lembrei-me do passado e toca a rir.
    Como na cena dos encontros, se beijava, se abraçava,…. eram cenas iguais.
    Com exceção das situações de deixar o sapato à entrada da casa, passando a andar de meias, bem como andar de bicicleta para todo o lado; de resto é tudo igual aqui onde vivo.
    Uma outra situação que adiciono à sua lista de mudança de hábitos é a reciclagem. Onde eu vivia no Brasil não fazíamos e continua sem ser feito. Seria tão bom para o Brasil e com as suas dimensões ajudar a natureza.
    Bjs

    1. Não sei com certeza, mas acho que o costume de se cumprimentar e beijar diminuiu ainda mais depois da última gripe aviária.

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