10 coisas culturais que aprendi morando na Suécia

E não é que eu tive um dos meus textos publicado em outro site no mês de junho. Pois é. A convite do site Nômades Digitais escrevi sobre as 10 coisas que aprendi morando na Suécia.

Para quem mora em outro país, sabe bem que o aprendizado vai muito além da cultura. Entre tropeços e conquistas, tristezas e alegrias, as experiências adquiridas serão carregadas para a vida toda. Mudamos a forma de pensar, amadurecemos, damos mais valor às coisas simples da vida, enquanto que outras que julgávamos importante já não fazem mais o mesmo sentido. Acredito que evoluímos como ser humano também, não é?

Mas como essa não era a proposta, acabei optando por focar apenas na cultura do país. O texto não teve a pretensão de ser uma tese científica sobre o aprendizado na Suécia e nem um passo a passo para tornar a vida no país um mar de rosas. Longe disso! Foi apenas um relato pessoal voltado exclusivamente para a cultura, até porque não sou o tipo de pessoa que escancara a vida aos quatro cantos da internet e confesso que tenho um pouco de receio dessa exposição.

E para você que está comigo aqui no diário há algum tempo, talvez não tenha grandes novidades, já que dei uma garimpada no que havia publicado anteriormente. Porém, tentei trazer mais curiosidades e assim mesclar o “velho” com o “novo”. E sabe o que mais? Gostei do resultado!

Bom, chega de enrolação, né? Bora conferir?

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A Suécia é um país belíssimo e tem uma paisagem espetacular, cidades incríveis, uma população educada (a maioria da qual fala inglês) e uma história e cultura muito mais antigas do que o nosso Brasil. É um país voltado para as inovações e que deu ao mundo nada menos que o Prêmio Nobel, os carros da Volvo, os móveis da IKEA, as embalagens Tetra Pak, as roupas da H&M, a vodka Absolut, os grupos ABBA e Roxette, entre tantas outras coisas.

Mas morar por aqui é mais do que conviver com tudo isso. É conhecer a língua, se deparar com os novos desafios e aprender a cultura local. Agradando ou não. E desde que cheguei à terra dos vikings, há três anos, ainda continuo em processo de aprendizado. Num primeiro momento, certas coisas me pareceram estranhas (e algumas ainda continuam parecendo), mas se esse é o país que escolhi para viver, pelo menos por enquanto, nada mais sensato que entender, respeitar e incorporar no meu dia a dia os costumes locais, não é mesmo?

Então, vamos lá!

1. “Fika” é um ritual quase que religioso

A primeira vez que ouvi a palavra Fika eu achei que tivesse alguma relação com o fato de você ficar com alguém, porque era um tal de ”fika” pra lá, ”fika” pra cá e ”fika” a qualquer hora, que acabei tendendo para o lado malicioso. É eu sei. Vergonhoso isso! Mas depois que soube o que era acabou virando vício, seja pela manhã, tarde, noite e até na madrugada. Na verdade, Fika significa fazer uma pausa para se tomar um cafezinho ou outra bebida, se preferir, com amigos, familiares ou conhecidos e, normalmente, é acompanhando de qualquer tipo de doce, que pode ser um bolo, uma torta, um cookie, um kanelbulle (bolo de canela) e por aí vai. Esse ritual é tão forte por aqui que em muitos locais de trabalho se instituiu o intervalo para café, não apenas como uma pausa no trabalho, mas também como uma reunião informal. E por quê?

Porque as companhias suecas acreditam que essas pausas ajudam o sucesso da empresa, já que é o momento ideal para “limpar o cérebro” (como eles chamam), trocar ideias e experiências, além de contribuir para o aumento da satisfação do funcionário e criar aquele sentimento de grupo. E para aquele que evita o “fika”, saiba que ele pode ser visto com desconfiança pelos suecos. Acho que é bom ter a mente aberta e uma pausa não faz mal a ninguém, até porque terá muita coisa gostosa para comer. Agora, o “fika” também pode servir de desculpa para convidar aquela pessoa que se está de olho há algum tempo. Que tal lançar um “Ska vi ta en fika?” (Vamos tomar um café?). Vai que o xaveco dá certo.

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2. Um beijo estalado e um abraçado apertado nem sempre cai bem

Depois de tantas bolas fora, aprendi na marra que o beijo é reservado para a intimidade e no dia a dia ou em uma apresentação não se beija ninguém. Ponto! Um aperto de mão é mais do que suficiente. Se com o tempo a amizade deslanchar, os abraços são mais do que bem vindos. Hoje em dia eu sempre espero a atitude do outro e assim fujo de qualquer gafe. Agora preciso dizer, quando vou ao Brasil, meus amigos estranham por eu não sair beijando a bochecha de todo mundo.

3. Ser “lagom” é o politicamente correto

Tão importante para os suecos e tão complicado pra mim. É o código de conduta social na Suécia e que significa ser moderado, apropriado, apenas o suficiente, ou seja, nem mais e nem menos. É ser na medida certa, já que nada exagerado é bem visto. Estou me esforçando, mas o duro mesmo é saber que medida é essa, ainda mais quando se vem de uma cultura tão expansiva como a brasileira.

4. Reclamar do clima é uma arma poderosa

Não apenas os suecos, mas estrangeiros também reclamam do clima o tempo todo. E eu sou apenas mais uma, principalmente quando há pouca luz do dia durante o inverno. É triste, é frio e o humor é afetado como nunca. Agora, quando quero usar de uma forma poderosa para que a interação social aconteça num vapt-vupt eu simplesmente reclamo do clima. É um assunto neutro e o papo rende que é uma beleza.

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5. O silêncio é de ouro

Não é de espantar se ninguém me interrogar num primeiro contato, afinal a comunicação sueca é basicamente “falar é prata, calar é ouro”. O que significa dizer que saber mais sobre a vida pessoal do outro pode demonstrar grosseria. Por exemplo, se um sueco não puxa papo comigo nos primeiros 10 minutos durante um almoço ou café, eu não levo para o lado pessoal. Ele quer apenas desfrutar de um pouco de paz e tranquilidade. E se isso acontecer contigo não se preocupe, que com o tempo essas questões vão sendo deixadas de lado e quando a amizade realmente acontecer ele te fará perguntas sem qualquer cerimônia.

6. Brindar é mais que um simples tim-tim

Quando se levanta um copo e grita “skål” (saúde), todos devem fazer contato visual com todos os outros na mesa antes de beber. Não importa se o brinde é entre três ou trinta pessoas. Esse ritual é perfeitamente normal: olho no olho antes de beber e novamente após o primeiro golinho para todos os participantes. A primeira vez que fiz o tal brinde foi meio estranho, porque achei que havia alguma coisa errada comigo já que todos estavam me olhando. Mas passada a paranoia percebi que esse é só mais um dos rituais da cultura sueca.

7. Preciso pagar imposto para assistir TV e usar a internet

O governo me cobra uma taxa anual de 2.076 coroas suecas (o que dá em torno de R$ 700,00) pelo direito de assistir TV e usar a internet. A partir do momento que eu compro uma TV nova em uma loja no país, o pagamento da taxa passa a ser obrigatório. Posso até tentar “burlar” o pagamento dizendo que não comprei a TV, que foi um engano ou que o responsável pelo pagamento é o proprietário da residência que alugo. Porém, essa história tem vida curta, pois há fiscais do governo que podem a qualquer momento bater à porta para verificar se há ou não a bendita da TV. E tem mais. Assim que eu contratar os serviços de TV a cabo e internet, alguém ligará perguntando sobre a tal TV ou sobre o acesso à internet. Se mesmo assim eu insistir que não tenho, eles lançarão a seguinte pergunta “Se você não tem, então por que você contratou os serviços com a empresa X?”. Pois é, não tem jeito. O governo me enviará a tal cobrança eu querendo ou não.

8. Sapatos são permitidos, mas só até a entrada de casa e que meias bonitas chamam a atenção

Tiro os sapatos sempre que chego em casa ou visito meus amigos. Durante o inverno, não é apropriado caminhar pela casa com os sapatos cheios de neve, porque é uma lambança só. E no verão a mania permanece, já que a casa fica tão limpinha. Mas tomo cuidado com as meias, porque quanto mais bonitas elas forem, mais estilosa eu pareço ser. Isso eu acabei levando para o Brasil em minha última visita, pois de certa forma agora não me sinto confortável em entrar na casa de alguém e ficar pisando naquele chão tão bonito com meu sapato que veio direto da rua.

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9. O verão é incrível

É a estação mais esperada por mim e para quem vive desse lado do oceano. O sol nasce antes que eu acorde e se põe depois que vou para a cama. Isso significa dizer que se eu trabalho até as 17h, terei 6 horas de sol depois do trabalho. É o período perfeito para desfrutar da qualidade de vida para fazer outras coisas como caminhadas, piqueniques, natação, canoagem etc. Sem contar o fato que depois de ficar meses vestida da cabeça aos pés é o momento perfeito para repor a vitamina D. Tanto que a minha está bem abaixo do nível ideal.

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10. Churrasco é composto de salsicha e legumes

Pense naquele legítimo churrasco brasileiro. Do coração de frango à picanha. Pensou? Pode esquecer tudo isso, porque aqui o que manda são as salsichas. Todo churrasco tem salsicha, batata e legumes. Não é aquela fartura a que eu estava acostumada, mas da para o gasto. E não para por aí. Às vezes, ser convidado para um churrasco não significa que eu irei para encher a pança. Significa apenas que irei encontrar os amigos e que passaremos um ótimo tempo juntos, porém terei de levar os meus próprios comes e bebes, já que irei compartilhar apenas a churrasqueira. Ah! A salsicha por essas bandas possui vários tipos e sabores, pelo menos isso, né?

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E aí gostou? Vou ficar na torcida para que sim!

Vi ses… hej då! 😉

18 pensamentos

  1. Oi Vania, tudo bem?
    Realmente morri de rir com o item 6, o do contato visual ao brindar! Agora isso me é muito familiar, sou casada com sueco e sempre ia a festas suecas mesmo quando ainda morava no Brasil! É exatamente assim kkkk também achava estranho e nunca segui muito isso, sou meio rebelde…um exemplo é aquela história de assistir o desenho do Pato Donald com a família na tarde de Natal…pelo seu blog soube da importância desta ocasião, próximo Natal estarei eu assistindo também rsrsrs junto a família.
    No mais, tudo maravilhoso na primavera! Amando!
    Bjs, hej då

    1. Olá Norma!
      Então você já está mais acostumada do que nunca, né?
      Eu estranhei muito essa de assistir o desenho no final do ano, mas com o tempo a gente vai se acostumando rs. Você terá o gostinho de ver de perto como tudo funciona. Depois volta aqui e me conte o achou, tá?
      Puss! 😉

  2. Olá Vânia, tudo bem?

    Eu tenho algumas dúvidas e espero que você consiga me ajudar, pois estou totalmente perdido. Sou bem leigo no assunto, não manjo quase nada.

    Vamos lá, nesse final de ano estarei terminando meu terceiro ano do ensino médio junto com a minha namorada, estou com 18 anos completos e ela fará 18 em Fevereiro, depois de muitas conversas, decidimos sair do país (como se fosse fácil HUAHUAH) para uma graduação (ou pós) e depois nos fixar em algum lugar, pensamos primeiro na Suécia, ela tem uma tia que reside no país que sempre falou muito bem do lugar, eu comecei a pesquisar e acabei vindo parar no seu blog e sinceramente estou apaixonado pela Suécia (e você escreve muito bem, parabéns!).

    Eu e a Giulia decidimos esperar esse ano de 2015, primeiro por nós dois estarmos bem confusos sobre uma graduação, segundo por uma questão financeira, eu vou trabalhar nesse período de um ano e juntar o máximo de dinheiro possível.

    Gostaria de saber sua visão disso, no caso de um visto para trabalho, eu tenho que estar trabalhando em alguma empresa pra depois ir para Suécia? Ou posso simplesmente ir lá e tentar um novo emprego? Talvez um visto de estudante seja uma melhor opção (para aprender algum curso), mas isso tem um custo e não faço ideia de quanto é. Estou bem perdido, mas sempre pesquisando muito, gostaria de saber sua opinião geral.

    Muito obrigado!

    1. Olá Miguel!
      Um dos primeiros passos para morar, estudar ou trabalhar na Suécia é você vindo legalmente. Como cada caso é um processo diferente, o site do Departamento de Migração da Suécia fornece informações de como se aplicar para cada tipo de visto. http://www.migrationsverket.se/English/Private-individuals.html

      Se quiser vir com visto de trabalho você precisa ter uma proposta de trabalho concreta, ou seja, um contrato assinado entre a empresa com escritório na Suécia e você. Para entender um pouco mais desse processo dê uma olhada no post que fiz sobre permissão de trabalho http://diariodeumateimosa.com/2014/09/05/permissao-para-trabalhar-na-suecia/.

      Agora para continuar os seus estudos na Suécia eu recomendo o site Study in Sweden que fornece informações bacanas sobre como se aplicar a uma vaga estudantil, os programas, as universidades etc. O site é esse aqui https://studyinsweden.se/.

      É importante você saber que conseguir emprego na Suécia não é fácil. Você só conseguirá se tiver o visto para tal, que deverá ser tirado antes de você vir para cá. Sem visto, você não consegue fazer absolutamente nada no país. É como se você não existisse. Lembre-se de que você deverá tirar o visto ainda estando no Brasil e não quando chegar aqui, ok?

      Abraços e boa sorte!

      1. Oi Vânia, Miguel…
        Vou me meter na conversa…:) É q hoje estava a falar exatamente o mesmo com uma colega aqui (Bélgica). Não se consegue trabalho sem documentos aqui também. Talvez, só mude o nome, mas sem visto, sem cartão de residente, sem visto de residência, enfim, sem o tão desejado papel, é mesmo como se não existissimos.
        E, sempre todos os documentos brasileiros devem passar pelo reconhecimento no consulado do país de destino no Brasil. Pelo menos foi assim com já 2 países de experiência a viver fora.
        Abraços.

  3. boa tarde vania..seguinte meu irmao esta indo p esse pais maravilhoso estudar por 3 meses,e eu estou querendo ir junto,mas meu maior problema e tudo,desde a lingua,cultura,ate tenho coragem de arrumar algo p sobreviver qdo meu irmao voltar p brasil.voce tem algumas dicas para me dar,e conhece muitos brasileiros por ai?obrigado pela atencao.bjo

  4. O Fika devia ser adotado por aqui! hehe
    Quanto a ser “lagom”, acho que deve ser complicado mesmo encontrar esse equilíbrio dentro de uma cultura que você não conhece como um nativo. Às vezes o que é moderado pra gente não é o moderado pra eles… mas acredito que com o tempo você já deve ter aprendido bastante quanto a isso 😉

    Beijo

    1. Haha, até que não seria má ideia. Agora, precisa ver como é que as empresas iriam encarar isso. Falo isso por experiência própria, pois algumas onde trabalhei não viam com bons olhos esses breaks durante o expediente.
      Quanto a ser “lagom” posso dizer que estou encontrando o meu equilíbrio. Hoje eu vejo que essa coisa de ser espalhafatoso não me agrada muito. Hoje, pra mim, ser discreto conta muito mais. 🙂
      Puss!

  5. Oi Vânia!
    Gostei demais do q escreveu no segundo parágrafo. Anotei, e talvez, um dia peça-lhe permissão para utilizá-lo. A gente muda mesmo e marca a nossa vida para sempre.
    Por vezes, penso q é totalmente uma nova vida, pois alguns casos é recomeçar tudo mesmo. Isso deixa-me tonta. É preciso muita coragem e força.
    Bjs

    1. Oi Sil, que bom que gostou!
      Já era para eu ter divulgado esse texto faz tempo, mas com a correria acabei esquecendo. Em alguns momentos penso em compartilhar outras coisas, mas como conversamos tantas vezes, é preciso ponderar o que expor na internet e assim tentar evitar futuras dores de cabeça, não é mesmo?
      Acredito que tudo que é novo nos assusta. Realmente é preciso buscar essa coragem e força, que muitas vezes estão escondidas lá no fundo. Sair da zona de conforto não é para qualquer um. Mas uma coisa eu tenho certeza, a gente tem de ser feliz, mesmo que em alguns casos seja necessário abrir mão de outras. E isso é um desafio e tanto.
      Puss! 😉

      1. Acho que o que não nos faz mal, vale a pena tentar, do que chegar mais tarde e se arrepender por não ter tentado. Penso, que o não tentar é no futuro mais desgastante do que deixar, no presente, por uns tempos a “zona de conforto” e tentar algo melhor ou diferente para sua vida, para o seu futuro.

  6. Parabéns pelo seu blog e compartilhamento das suas impressões. É muito bom conseguir conhecer essa visão fiel que você consegue passar.

Faça a teimosa feliz. Comente!