SFI: falha do governo, experiência pessoal e dicas para iniciantes

No mês passado eu compartilhei como funciona o curso de SFI – Svenska för Invandrare (Sueco para Imigrantes) e quem tem direito a cursá-lo. Dessa vez irei falar um pouco onde o governo falha – na minha visão pessoal –, a experiência que tive com o curso nas cidades de Gotemburgo e Estocolmo e dicas de alguns sites e apps que podem ajudar no aprendizado para quem é iniciante.

Acho importante reforçar que cada expatriado que mora na Suécia tem uma visão diferente sobre o ensino do SFI no país. O que colocarei a seguir poderá não agradar algumas pessoas, mas o que será compartilhado é baseado puramente em minhas experiências pessoais, ok?

Então, vamos lá!

O governo e as falhas com o SFI

Apesar do curso SFI ter me ajudado bastante no entendimento básico da língua, com o passar do tempo eu percebi que ele não funciona tão bem assim.

Primeiro que a qualidade do ensino varia bastante em todo o país. Há poucas escolas boas e muitas ruins. O “x” da questão é saber quais são as qualificadas e se os professores estão preparados para lecionar nesse tipo de curso. Mesmo em escolas com boa reputação há professores despreparados. Infelizmente, o governo sueco ainda não consegue manter um controle adequado das escolas participantes do programa de SFI, mesmo avaliando o rendimento dos alunos através da Nationella Prov (Prova Nacional de Sueco).

E segundo que há questão dos refugiados e expatriados que chegam ao país. Assim que essas pessoas chegam na Suécia o próprio governo diz que a prioridade é aprender o idioma local primeiro e depois procurar um emprego. O que acontece é que as pessoas com boa qualificação profissional são tratadas da mesma maneira que as pessoas com pouco ou nenhum estudo. Não há um planejamento apropriado para aproveitar essa mão de obra especializada que poderia contribuir com o crescimento do país. Esse indivíduo qualificado – refugiado ou não – poderá levar anos para entrar no mercado de trabalho e em alguns casos ainda corre o risco de não conseguir trabalhar na área em que possui experiência. Resultado: profissionais gabaritados super frustrados e mal aproveitados.

Ao mesmo tempo em que esses profissionais têm a barreira da língua, eles ainda precisam aguardar a validação do(s) diploma(s), já que diplomas fora da Europa não têm validade na Suécia – são poucos os casos de pessoas que conseguem pular essa etapa.

No meu ponto de vista o aprendizado do idioma deveria acontecer em paralelo com o trabalho ou estágio. Para muitos imigrantes recém-chegados isso é a chave para aprender o sueco, bem como a possibilidade de ter pessoas para conversar e se socializar. Mas o mais importante é a oportunidade de poder exercer sua própria profissão.

Sala de SFI em Gotemburgo
Sala de aula na Folkuniversitetet em Gotemburgo

Porém, há imigrantes que não querem saber de nada. Eu mesma estudei com alguns que estavam interessados apenas em receber o dinheiro do governo para ficarem uma eternidade estudando no SFI. Quando fui questionada por alguns deles o motivo pelo qual eu não recebia o mesmo tipo de auxilio que eles, fui chamada de “tonta”. Expliquei que minha situação no país era outra e como não sou refugiada não tenho direito a tal benefício. Lembro como se fosse hoje um deles me dizendo “você precisa dar um jeito, porque a Suécia é rica e eu não vou trabalhar se eu posso receber dinheiro sem fazer nada”. Foi triste ouvir isso, mas entendi que essa é a mentalidade de alguns poucos – não de todos – que tentam se dar bem de alguma maneira.

Pois bem, se por um lado há a falta de comprometimento de algumas pessoas, por outro é que o ensino não é suficientemente adaptado para o aluno e muito raramente adaptado às exigências profissionais de cada indivíduo. O sistema atual de ensino do SFI precisa urgentemente ser revisto e ajustado para criar oportunidades de inserção social e profissional.

Mas é fato que o governo não faz milagre sozinho. O sucesso no programa do SFI também é baseado no empenho individual e em quanto tempo essa pessoa pode se comprometer com os estudos. Se cada um fizer a sua parte, com certeza alguns problemas que começam a aparecer no país podem ser minimizados ou quem sabe até extintos.

A minha experiência com o SFI

Minha relação com o idioma sempre foi de amor e ódio. Ora me divertia em aprender ora eu tinha – e às vezes tenho – vontade de sair correndo e gritar. Por que estou contando isso? Porque é muito comum as pessoas contarem seus casos de sucesso no aprendizado, mas são poucas as que expõem as dificuldades que passam com o idioma.

Quando eu estudei em Gotemburgo o curso era bem puxado, já que era voltado para acadêmicos. Me recordo que a carga horária era de 40 horas semanais na escola e mais 20 horas com as atividades extraclasse. Apesar de a escola ter uma estrutura fantástica com salas apropriadas, computadores e impressoras à disposição para facilitar o aprendizado, o corpo docente não era tão bem preparado assim. Dos 10 professores que eu tive, apenas um se salvava.

Sala de computadores em escola de SFI em Gotemburgo
Espaço com computadores na Folkuniversitetet em Gotemburgo

O curso também era uma verdadeira competição entre os alunos. O sentimento que eu tinha era como se estivesse no primário disputando com os amiguinhos a melhor nota da classe. Todos os alunos precisavam provar diariamente que eram bons o suficiente para estarem nesse curso específico. Se por acaso alguém tivesse uma avaliação baixa, corria o risco de perder a vaga e ir estudar num curso regular do SFI, e na época o curso regular não era visto com bons olhos, nem pelos alunos e nem pelos professores. Isso soava como uma ameaça sobre nossas cabeças prestes a explodir. No meu caso, a pressão do aprendizado do idioma somada à minha adaptação do primeiro ano no país, que diga-se de passagem não foi fácil, fizeram com que eu pegasse birra do sueco e trocasse de curso meses depois. Cheguei a fazer o curso regular somente por um mês, mas a qualidade das aulas era tão baixa e o descomprometimento de alunos e professor tão elevado que eu resolvi abandoná-lo e aprender por conta própria, pois seria mais produtivo.

Depois de alguns meses veio a minha mudança para Estocolmo e decidi encarar o curso de sueco mais uma vez. A minha percepção é que na capital os cursos são mais leves e sem tanta cobrança. Há escolas boas e ruins, professores supimpas e outros que deixam a desejar. A infraestrutura também é diferente e com sorte algumas disponibilizam um computador para pesquisas rápidas. Acredito que não exista algo similar como a escola de Gotemburgo, onde fiz o meu primeiro curso.

Sala de SFI em Estocolmo
Sala de aula na Folkuniversitetet em Estocolmo

Eu tive a experiência com escolas diferentes, tanto em Gotemburgo como em Estocolmo. Em ambas as cidades fiz o SFI na Folkuniversitetet (o curso para acadêmicos – que não existe mais – como o regular). Mesmo tendo altos e baixos durante o percurso do aprendizado, a Folkuniversitetet ainda continua sendo um curso bastante completo e educacional, pois dá uma boa base gramatical. Portanto, se você tem tempo para um estudo mais intensivo, pode ir à aula diariamente e tem vontade de aprender sueco considere a Folkuniversitetet como sua primeira escolha e a Hermods como seu backup, mas tenha em mente que escola perfeita não existe.

Material de SFI
Material utilizado nos primeiros níveis do SFI

Sites e app’s para iniciantes

+Babbel (site e app): uma combinação de visual e áudio que faz uma experiência de aprendizagem muito mais agradável

Lexin Bildteman (site): um dicionário que combina figuras com as palavras em sueco

Learn Swedish online (site): lições básicas sobre sueco

Duolingo e Fabulo (app): possuem a mesma sistemática do Babbel

SAOL (app): perfeito para conferir palavras na forma definida e indefinida, tanto no singular quanto no plural

Por fim, mesmo o governo falhando no programa de SFI e as escolas não sendo perfeitas, se você estiver pela Suécia e tiver o personnummer aproveite a oportunidade para fazer o curso, pois as aulas são gratuitas e não há nenhuma razão para não tentar, mesmo que seja apenas uma vez. E lembre-se que você nunca deve se comparar com os demais, até porque as pessoas têm ritmos diferentes de aprendizagem.

Vi ses… hej då! 😉

11 pensamentos

  1. Vânia, vc descreveu o que passei na Holanda na época que tinha que aprender holandês. Não sei se vc chegou a ler algo a respeito no meu blog. Aliás, eu tenho quase certeza que a eles, nativos, não lhes interessam que estrangeiros dominem seu idioma. Felizmente, tive meu diploma reconhecido mas NUNCA consegui uma entrevista de trabalho pras vagas que solicitei, dentro da minha formação. Trabalhei por um tempo porque foi com conhecidos. Por um lado, tem gente que se deu bem mesmo não tendo estudo nenhum, mas por QI. É frustante porque nem penso mais se realmente tem a ver só em não saber o idioma. Na verdade, não temos chances de aprendê-lo. O programa tinha que ser melhor preparado, direcionado, mas não o é. Eu também não tenho direito a subsídio e pra esta gente que recebe, realmente, a maioria não quer estudar, trabalhar, nada…rs e tem todo um programa pra eles. Se eu for tentar fazer algo, terei que pagar tudo do meu bolso. O curso de holandês de integração foi gratuito quando cheguei, mas o nível baixo…justamente pelos motivos que vc comentou. Professores que eram na verdade desempregados e deveriam fazer algo pra justificar a pensão que recebiam do governo. E, sim, minha relação com o holandês é de amor e ódio também hahaha

    1. Oi Eliana, claro que li… e essa foi uma das razões que me inspiraram a fazer esse texto. As coisas que acontecem não são fáceis e eu sinto muito por você ter passado por essas situação também. Eu tenho boas e más experiências com esse curso e isso o que compartilhei não é nenhum tiquinho do que vi acontecer por lá. Mas uma coisa é certa… concordo plenamente contigo!

      1. Vou falar que eu li de novo agora esse texto e deu vontade de escrever de novo… Aiaiai que tô agarrada nessa lingua tb! :/
        Travada! 🙁
        Bom, vamos a uma questão… Li que a Folkuniversitet tem curso pago de Sueco… será que esse vale a pena ser feito (qualidade em educadores)? Você conhece alguém que fez? Achei o valor alto e não sei se vale de verdade a pena investir… #medo kkkkkk Beijos!!!!

        1. Chris!
          Esse idioma é um baita desafio, pelo menos para mim é :-(. Eu tenho amigos que fazem esse curso particular na Folkuniversitetet e é tipo assim… beeeeeeeeeeem tranquilo. As aulas são bem suaves, sem muita cobrança e nem prova tem. Quer dizer, esses meus amigos levaram a prova para fazer em casa :D, ou seja, mamão com açúcar. Conheci uma brasileira há uns dois no Brazilian Day e ela disse que só aprendeu um pouco da língua depois de dois anos e ainda foi no SFI. Portanto, nem mesmo o particular pode salvar a pátria. Por outro lado, eu entendo também que depende muito do esforço de cada um. De repente, você pode pedir para assistir a uma aula gratuita como teste para sentir como é o andamento do curso, trocar uma ideia diretamente com o professor e ver se vale a pena. 🙂

    1. Que notícia ótima! Tomara que você aproveite muito a cidade e consiga explorar muitos lugares em Estocolmo. Adorei saber que o blog está te ajudando. Uhullll! Só pra você saber, em março ainda é meio friozinho, tá?! Valeu pelo carinho! 😉

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