O verdadeiro significado da expressão “Saída à Francesa”

No dicionário informal significa sair de fininho, furtivamente, em silêncio. Mas e quando você encontra um verdadeiro francês, será que essa expressão teria o mesmo significado? Veremos!

Quando ainda estava em Gotemburgo, bem frente a minha casa morava uma família de franceses.

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A casa à direita, com o enfeite de Natal na janela, é onde os franceses moravam

E estava eu, um dia bela e formosa, dando um tapa no jardim de casa quando a francesa veio conversar comigo. A gente batia um papinho ali e outro acolá, tipo papo furado de vizinhos mesmo, sabe, ríamos e ela me contava alguma coisa sobre as aulas particulares de francês que dava e sobre o quão cansada estava em cuidar da casa e dos filhos. Seu semblante era sempre meio triste e cansado. Mas nesse dia ela estava diferente. Uma mistura de alívio com felicidade. E foi aí que ela me deu a notícia que após três e meio de Suécia ela e a família decidiram que era hora de voltar para a romântica e iluminada Paris.

Ficamos ali conversado. Conversa essa que na verdade foi mais um desabafo. Ela falou sobre o quanto havia se enchido da Suécia, da cultura, do clima, das pessoas, do idioma, que odiava absolutamente tudo e que se um dia o marido dela cogitasse morar novamente por essas bandas, que só seria por cima do cadáver dela. Eu fiquei ali dando aquele apoio moral que toda pessoa que desabafa espera, né?

Depois de alguns minutinhos, ela se sentindo mais aliviada por ter colocado para fora tudo o que afligia o seu coração, ela voltou para casa e eu continuei a minha terapia com a terra. De repente, eu me lembrei de algo que aconteceu entre nós assim que nos mudamos para esse bairro e comecei a rir sozinha.

Aqui segue a história:

Personagens: eu e maridão
Quando se passa: setembro de 2011
Onde: bairro de Örgryte em Gotemburgo

Nos mudamos no final de agosto para esse bairro, depois de um tumultuado contrato com outro proprietário. Uma região muito boa para se morar, tranquila, bem localizada e vizinhança top. Assim que o caminhão descarregou as caixas da nossa mudança eu já coloquei a mão na massa para tentar deixar a casa nos trinques.

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Caixas e mais caixas da mudança

Após alguns dias da nossa instalação, enquanto eu ainda estava no processo de desempacotamento e arrumação da casa, alguém toca a campainha. Desço as escadas para abrir. Olho pelo vidro na parte superior da porta e não tenho ideia de quem seja. Uma mulher de cabelos loiros bem curtinhos, pele rosada, olhos verdes bem marcantes e olheiras profundas. Abro a porta e ela com toda a doçura se apresenta e dá às boas-vindas.

Ela: – Olá, eu sou a Christelle e eu sou a sua vizinha da frente. Muito prazer!

Eu: – Olá, eu sou a Vânia, muito prazer também.

Ela: – Seja bem-vinda Vânia!

É uma conversa cordial, cheia de sorrisos e energia positiva. Ela me conta que é francesa (se bem que eu já tinha notado pelo sotaque), me fala que uma das filhas dos antigos moradores era muito amiga da filha dela, que estudaram juntas na mesma escola internacional, que o marido trabalha em uma das filiais da Renault e essa é a razão por terem se mudado para Gotemburgo, que ela tem 4 filhos, dá aulas particulares de francês, que tem uma vida bastante ocupada e assim por diante.

E aí que papo vai e papo vem, ela me solta:

– Eu quero convidar você e seu marido para um jantar na minha casa. Um jantar de boas-vindas.

E eu com aquela cara de surpresa concordo euforicamente:

– Mas é claro, será um prazer para nós!

Ela: – Sábado então às 19h, ok?

Eu: – Perfeito!

Nós: Até lá!

Nem cheguei a confirmar com o maridão se havia algum compromisso marcado, mas assumi que não, pois como recém-chegados e ainda com pouquíssimos conhecidos, nossa agenda estava mais vazia do que nunca. Essa era a oportunidade perfeita para fazer novos amigos, especialmente de outras culturas.

Como nunca tinha vivido uma experiência como essa achei o máximo. Foi de uma atitude tão gentil e tão receptiva que fiquei ansiosa para que o sábado chegasse logo.

Para não fazer feio durante o jantar eu recorri a quem? Ao pai de todo o conhecimento, o Google é claro. Eu precisava ter o mínimo de informações de como me comportar durante um jantar com franceses, o que eles poderiam esperar de mim como convidada e como eles tratariam suas visitas. Foi mais para entender a parte cultural mesmo. Mas sabe o que eu descobri? Que o Google também pode ser um grande mentiroso, isso sim.

Vários sites que consultei mencionaram que era importante NÃO CHEGAR NO HORÁRIO, pois poderia ser deselegante. O ideal seria chegar entre 10 e 15 minutos atrasado para a anfitriã finalizar os últimos detalhes. Outra coisa que havia lido é que o francês se preocupará em manter a taça sempre cheia da mulherada, pois independente de ser solteira ou casada, ele procurará ser bastante cordial com a figura feminina. Os sites traziam também informações de que os franceses são boêmios, que gostam de conversar até tarde, que são atenciosos e mais um monte de outras coisas interessantes.

Mas continuemos.

No dia “D” chegamos uns 15 minutos atrasados respeitando a regra francesa. Tocamos a campainha e ao abrirem à porta fomos recebidos com um largo sorriso no rosto, tanto pela Christelle, quanto pelo Gérard, seu marido. Ele era bem alto, magro, cabelos lisos e bem pretinhos. E ao contrário da Christelle ele não tinha o semblante cansado e me pareceu bastante enérgico.

Nos deram às boas-vindas e fomos em direção à sala de estar – o que a gente não esperava é que por ali ficaríamos até irmos embora. Bom, e enquanto nos acomodávamos e ainda estávamos naquele ápice de felicidade, o Gérard perguntou se tomávamos vinho. Concordamos que sim.

Ele foi até a cozinha e quando retornou para nos servir, tinha em suas mãos quatro copos pequenininhos, tipo aqueles de extrato de tomate elefante, só que com vinho tinto. E ainda pela metade. Isso mesmo, ME-TA-D-E. Até aí tudo bem, de repente essa é a nova etiqueta francesa, sei lá.

Enquanto segurávamos nossos copos de extrato de tomate numa mão, alguns petiscos já estavam servidos na mesinha de centro da sala. A conversa fluía animada sobre os mais diversos assuntos. O vinho no copinho começou a diminuir, mas continuamos na esperança de que viria a ser servido um pouco mais. Afinal, a noite tinha tudo para ser agradável.

Passado um tempinho o francês levanta e some do ambiente. Continuamos ali na sala de estar com a Christelle nos entretendo. Penso comigo, “ahã é ele quem está preparando o jantar. Danadinho!”. Entretanto, não sinto nenhum aroma se espalhando pela casa. Penso novamente, “vai ver é algo inusitado que nunca provamos antes. Ou talvez já esteja tudo prontinho e ele irá colocar apenas para esquentar. Ou de repente é algum prato frio, algo bem francês”. Continuamos aguardando ansiosamente por mais vinho, já que temos agora apenas um dedinho da bebida no copo e estamos miguelando para não ficar sem nada.

Passa 15 minutos. Nada do vinho, nem do jantar e muito menos do francês de quase dois metros de altura. Passa meia hora. Ainda nadica de nada. A essa altura do campeonato, meu estômago começa a fazer barulho. Tipo roncando muito alto. Começo a sentir vergonha e dou um sorriso sem graça, com os dentes já meio rosados por conta dos três dedos do vinho tinto que foi servido.

Depois de mais de uma hora, o cara ressurge do nada e me solta a seguinte frase:

– Obrigado por terem vindo. Boa noite!

Nossa reação foi tipo:

Cara de surpresa1

Cadê o jantar? Cadê o vinho? Cadê a companhia? Cadê as boas-vindas? Cadê? Cadê? Cadê? Pois é, tudo furado.

Meu olhar encontrou o do maridão e não precisamos falar absolutamente nada. Imediatamente nos levantamos e agradecemos pelo convite. E o que era para ter sido um jantar, na verdade foi apenas um aperitivo, com meio copo de vinho, 3 canapés e 4 pedacinhos de queijos franceses, todos devidamente embalados e menores do que os dadinhos da Dizioli. That’s all!

Saíamos de lá com o rabinho entre as pernas e enquanto atravessávamos a rua de volta para casa maridão vira pra mim e diz:

– Fomos expulsos ou é impressão minha?

E eu respondi:

– Tem certeza que eu preciso dizer alguma coisa sobre isso?

Chegando em casa, abrimos a geladeira e por sorte encontramos os restos mortais de uma pizza deixada na noite anterior. Já meio seca e nem tão gostosa. Enchemos um copão de Coca, sentamos na frente da TV e a devoramos como se fosse o melhor prato do mundo.

E aprendemos que conviver com outras culturas pode ser uma caixinha de surpresas, a qual nem sempre terá coisas que serão coloridas, cheias de purpurina e que te agradem. Pois é, vivendo e aprendendo!

Vi ses… hej då! 😉

35 thoughts

  1. Confesso que teria medo de lidar com estrangeiros em suas casas… os costumes são tão diferentes que nem sei! Haha, mas ainda bem que havia pizza!
    Beijos ;*

    1. Olá Lisandra!
      Essa foi uma das primeiras experiências que a gente teve e posso dizer que foi hilária. Mas a gente não pode ter medo, porque coisas inusitadas podem acontecer. Por exemplo, se a gente não tivesse ido, com certeza não teríamos essa história para contar como essa, não é? 😀

  2. Que situação cômica! Eu morri de rir. Estranho o marido da francesa sumir e reaparecer só para “expulsar”, enquanto a francesa ficava enrolando vocês. Agora já sei: quando um vizinho francês me convidar pra jantar, vou pensar duas vezes antes de aceitar o convite, rsrs. Valeu Vânia!

    1. Elias, você tinha de ter visto a nossa cara. Foi uma situação tão diferente que a gente ficou meio desnorteado. Bom, mas pelo menos rendeu uma boa história, né? 😀

      Aceite o convite… vá que de repente a gente deu um puta azar, hein? Aí você volta aqui pra me contar e tirar essa má impressão que a gente ficou. 😉

      Puss, puss!

  3. Eu já tinha pensado em um desfecho do tipo: “nós jantamos naqueles quinze minutos que vocês se atrasaram, nao chegaram no horário a culpa nao é nossa” Hahahahahahaha
    Fiquei com medo de ser recepcionada por franceses agora, que situação…

    1. Olá Bruna!
      Olha, eu acho que se tivesse acontecido isso teria sido melhor, pelo menos a gente não ficaria naquela expectativa toda como aconteceu hahaha.
      Das duas uma: ou a gente deu muito azar com esse casal ou realmente os franceses são assim :-). Mas segundo uma leitora eles são bem receptivos, portanto acho que você não precisa se preocupar. Nós fomos premiados! 😀

  4. Oi, Vânia! Você falou dos copinhos de extrato de tomate e eu lembrei da minha avó brigando de quando eu levo eles pras visitas tomarem suco, hahahaha

    Você não deve se lembrar de mim, mas eu falei com você lá no Brasileiras pelo Mundo perguntando quando o Diário iria reabrir… Fico muito feliz que o blog tenha voltado, é maravilhoso! Já estou tomando notas pra quando eu for ^^ Pretendo fazer um ano de intercâmbio no Karolinska Institutet aí em Estocolmo, daqui a algum tempo, quando eu já estiver mais no final da faculdade. Espero que tudo dê certo e consiga conhecer esse lugar que parece ser incrível! Enquanto isso, seus posts satisfazem minha curiosidade hahahaha

    Aliás, será que você saberia responder se existem acomodações pra estudante aí, mais ou menos como um kollegium na Dinamarca (a Christiane Leme falou disso aqui: http://www.brasileiraspelomundo.com/dinamarca-quanto-custa-morar-aqui-091116026). Se não, tudo bem ^^ Espero não estar incomodando.

    Parabéns pelo blog e um beijo!

    1. Oi Sofia, agora você já sabe a impressão que eles causam. Sua vó está certíssima hahaha!

      Eu lembro de você sim. Na época eu deixei um pouco fechado para mudar o layout, bem como estava dando um tempo por motivos de saúde. Mas eu queria muito voltar porque gosto bastante desse espaço e da interação com as pessoas. Esse ano pretendo ser mais presente por aqui e fico meeeeeega feliz que você goste daqui também :D.

      Existem acomodações sim por toda a Estocolmo e a própria universidade dá as dicas de onde morar. Eu só não consigo discorrer mais sobre o assunto, pois não conheço muito sobre como é o processo. Mas um dos leitores certa vez mencionou que existe a possibilidade de ficar no próprio campus da universidade, porém, as vagas são limitadas e super concorridas.

      Pretendo trazer alguém com experiência de intercâmbio para falar sobre isso e se tudo der certo em breve teremos assuntos sobre como é “estudar na Suécia” :-). Vamos torcer!

      Valeu pelo carinho! Puss, puss! 😉

  5. Tô de cara!! hahahaha
    nossa, quando li a parte que eles falaram pra ir embora fiz a mesma cara do gif.. tipo ‘queeee???’ Por essa eu realmente não esperava! Gente.. atê contei pro boy que ta aqui do lado e ele também deu risada e ficou sem entender. Mas é assim, conhecendo outras culturas e suas peculiaridades. Muito legal o texto, Vania!

    ps: te segui la no instagram
    bjus
    :*

    1. Fala a verdade Taís foi uma experiência digamos que bem diferente, né? 😀
      Quando contávamos essa história para as pessoas ninguém acreditava, mas sempre vinha acompanhada das risadas. Por esse motivo achei que seria legal compartilhar aqui no blog também. Valeu pelo carinho!
      Estou te seguindo por lá também 🙂
      Puss, puss!

  6. Putz que situação. Nesse quesito posso dizer de coração cheio, se um alemão nos convida pra um jantar, já sabemos que vai ter muita comida, a ponto da gente pensar em deixar o almoço de lado. Eles são bem francos. Se o convite for só pra uns drinks eles fazem questão de deixar claro: comam em casa. É isso, cada cultura com suas peculiaridades 🙂

    1. Aninha, nem me fale! No dia a gente ficou meio sem graça, mas depois que passou a gente morreu de rir dessa situação. O que acontece até hoje! 🙂
      Bom saber que os alemães são diferentes, pelo que você falou eles são bem diretos… o que é ótimo. Ainda não tenho nenhum tipo de experiência com eles, mas o dia que tiver com certeza farei questão de registrar aqui no diário também. É tão gostoso conhecer diferentes culturas, né?! 😉

  7. Nossa Vânia, ri muito viu…..vivendo e aprendendo né? Realmente hospitalidade como a dos brasileiros não á igual….parabéns pelo maravilhoso blog…..amo cada post..

    Um super abraço!

    1. Linda… só essas coisas para acontecer comigo, né? Tem muitas outras histórias e com o tempo pretendo postar por aqui. Muito obrigada pelo carinho e por fazer desse espaço tão especial. Você é uma querida! <3 Puss, puss! 😉

    1. Obrigada Paulo por compartilhar a tradução correta :-). Estudei francês quando era criança, mas não lembro de absolutamente nada. Nesse texto eu só quis fazer um trocadilho mesmo. E saiba que nenhuma informação é inútil, tá? Valeu pelo carinho! 😉

  8. Será que eram franceses à moda suéca? Hahaha Ela chamou pra um jantar e apronta uma dessas? Nosso amigo francês nos fez comer até não podermos mais, muita champange e as taças nunca esvaziavam… e pra arrematar o jantar eles ainda comem uma bela fatia de pão com queijo. Passa-se horas à mesa, conversando e comendo rs Vcs retribuiram o jantar? hahaha

    1. Hahaha. Sei lá Eliana. Mas uma coisa eu te falo, nunca fomos expulsos de nenhum jantar com suecos. Nunquinha mesmo! E sorte a sua ter sido tão bem recebida, hein? A gente não teve a mesma sorte, mas valeu como experiência. Você sabe que a gente pensou em retribuir várias e várias vezes! Justamente pra provar que nossa hospitalidade brasileira é insubstituível… mas eu desencanei. Sei lá! Acho que fiquei magoada hahaha.

  9. Q chato, né?
    Meu convivio foi revelador pelo sem papas na lingua deles, mas nunca passei fome…ao contrario, franceses comem como se não houvesse amanha,
    bj

    1. Rosa, a gente ficou meio constrangido porque não esperávamos esse tipo de reação. Mas no fim foi tão engraçado, tão engraçado, que mesmo após anos terem se passado a gente ainda lembra dela e ri muito. Olha, sorte a sua não ter passado fome, porque a gente saiu de lá com o estômago nas costas hahaha.
      Muáh!

    1. Melissa, foi engraçado, isso sim! Sim, mantivemos a amizade como se nada tivesse acontecido. Eu entendi que na cabeça deles não aconteceu nada demais e foi tudo muuuuuuito normal. Só a gente que ficou com cara de tacho mesmo hahaha.

    1. Danielle, seria trágico se não fosse cômico, né? A gente ri bastante dessa história até hoje. Acho que como a gente era recém-chegado e tudo era muito novo, certas experiências nos marcaram para sempre. Essa foi uma delas!

  10. Vânia, ri muito dessa história! Seu jeito de escrever é muito legal, fiquei esperando uma revira-volta no final e no fim, era só um jantar de mentirinha, né? rs
    Eu não conheci muitos franceses por aqui, mas sei que eles tem umas particularidades bem… francesas! hahaha
    E agora que eles vão/foram embora, será que vocês terão vizinhos suecos ou de outra nacionalidade?

    1. O que aconteceu com a gente foi muito comédia, né? Eu queria muito contar essa história faz tempo, pois até hoje me arranca sorrisos, mesmo tendo se passado mais de 4 anos. Marcou nossas vidas! hahaha. Eles foram os únicos franceses que nós conhecemos e acho que precisamos conhecer mais alguns pra tirar essa má impressão, viu? 😀
      Agora, como a gente mora em Estocolmo, nós temos vizinhos suecos e russos. É outra pegada totalmente diferente! Especialmente os russos que são engraçados… reclamões também, mas super do bem. Valeu pelo carinho! 😉

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