As dores e as alegrias de ser um expatriado

Dia desses estava navegando pela internet e me deparei com a seguinte frase “você ser um expatriado é como voltar a ser uma criança de 5 anos de idade”.

Parei, pensei e percebi que isso realmente faz sentido. E por quê? Porque você precisa aprender tudo novamente, principalmente como é viver num novo país, onde tudo é curioso, emocionante e uma verdadeira aventura. Alguns diriam que isso é um privilégio único. E de verdade, isso faz sentido. Mas não vou negar, que há os momentos frustrantes também. O que a maioria das pessoas não percebe é que junto com todo esse glamour que gira em torno de ser um expatriado, a vida é bem mais difícil do que parece.

Mesmo morando há anos na Suécia, eu posso dizer que a experiência de aprendizagem continua todo santo dia e lá fundo eu acho que nunca terá fim. Há altos e baixos como qualquer coisa na vida, né? Mas é daí que a gente precisa sacudir a poeira e não deixar a peteca cair.

Bom, e pensando exatamente nesses altos e baixos, hoje eu quero compartilhar algumas das minhas observações desde que me mudei para a Suécia. São elas:

O que é bom e o que é ruim. Eu acho que o sucesso como um expatriado vem da atitude. Ficar o tempo todo reclamando da cidade em que mora, da cultura local ou até mesmo implicar porque o caixa do supermercado não te deu bom dia, vamos combinar, é um saco.

Eu gosto da Suécia e curto como é o sistema no país de fazer as coisas. Gosto de como as pessoas são cuidadas. A liberdade que se tem para se expressar e fazer o que se gosta, sem muita gente ficar cuidando da sua vida pessoal, não tem preço. Gosto de muitas outras coisas, como a segurança – a principal questão para mim –, a arquitetura única da capital do país, das tradicionais casinhas, as pequenas cafeterias e a diversidade de restaurantes. E eu amo de paixão os longos dias de verão.

Acho que as únicas questões reais são com o inverno escuro e o isolamento das pessoas. Se eu pudesse trazer do Brasil tudo o que me faz bem, com certeza eu seria a pessoa mais feliz do planeta. Mas não é assim tão fácil.

Se ver de fora para dentro. Bem, o que posso dizer sobre isso? Que simplesmente é duro. Você aprende muito sobre si mesmo quando você consegue dar uma relaxada. Viver em um novo país é como segurar um espelho na sua frente e parar para examinar, com detalhes, todas as coisas que você não gosta sobre si mesmo, e até mesmo as coisas que você nunca soube sobre como você era. Às vezes, a imagem desse espelho é meio distorcida e complicada. Cabe a cada um descobrir o que é verdade e o que é mentira sobre si mesmo e essa estrada pode ser repleta de pedrinhas e espinhos.

Tudo é novo. Como faço para abrir uma conta bancáriaPor que existe um código PIN para tudo? Como faço para usar a máquina de lavar roupa e como funciona a lavanderia coletiva? Os medidores das receitas são em milímetros ou decilitros? Onde é a cedilha no meu teclado sueco? Como pago o ônibus se não tem cobrador? Há produtos como o leite condensado e o creme de leite? Meu Deus, são pequenas coisas que fazem a gente ficar num eterno aprendizado. Gosto de aprender sobre diferentes coisas, mas o caminho é lento e em alguns casos me toma 3, 4 ou 5 vezes mais tempo para fazer qualquer tarefa. Mas pelo menos fica melhor com o tempo.

Seu sistema de apoio agora é você. Sim, todos os seus amigos e familiares vivem do outro lado do oceano e agora você precisa começar a se virar sozinho em todos os sentidos. Você aprende a depender de si mesmo.

Para assimilar ou não. Quando você muda de país muita gente diz “não deixe de ser quem você é”. Mas vamos combinar que isso é praticamente impossível. Vivendo numa nova cultura você aprende tantas coisas diferentes e únicas que o seu mundo fica bem maior do que se imagina. Afinal, são tantas novidades para absorver! O que é bom? O que é ruim? O que eu descarto? O que eu levo para a vida?

Confesso, que às vezes me sinto tão vulnerável como um gatinho na neve e às vezes me sinto forte e corajosa como um viking. No fim das contas eu sou quem eu sou eu. Após anos vivendo na Suécia, eu ainda continuo costurando a minha colcha de retalhos e tentando fazer o melhor que posso. Pois com a mudança vem o crescimento. Com o crescimento vem a mudança. Com a mudança vem a história. E com a história vem a vida.

As pessoas. Os suecos têm uma reputação de serem frios e distantes. Talvez seja apenas timidez ou cautela. Há muitos julgamentos. Alguns dizem que isso é porque a Suécia não lutou uma guerra nos últimos 200 anos e que vive em um mundo isolado e seguro. Por causa disso, eles não se encontraram com os verdadeiros desafios da vida que um povo geralmente se conecta. No entanto, alguém poderia pensar que um estilo de vida seguro e feliz faria as pessoas mais aptas a aceitar os outros, mas não é bem assim. Isto pode, certamente, ser visto nas políticas de imigração da Suécia.

Isolamento e exploração. Como uma novata na Suécia, eu estava muito preparada para o isolamento que eu poderia sentir. Em toda a minha vida, eu fui capaz de fazer amigos, encontrar trabalho, ganhar respeito. Essas coisas sempre vieram bem fáceis para mim. Mas quando você chega na Suécia, as coisas mudam de cenário. Fazer amigos já não é tão fácil justamente por você ser um expatriado e arrumar um emprego pode levar bastante tempo dependendo da área de formação.

Junto com o isolamento vem a maravilha da exploração. Aqui é o #1 da maior vantagem de ser um expatriado. Ser capaz de aprender coisas novas. Nova cultura. Explorar a cidade. Explorar o idiomaExperimentar novos alimentos. Conhecer novas pessoas. Ouvir diferentes pontos de vista. Às vezes, apenas assistindo TV pode se tornar um evento interessante.

Viver e Aprender. Eu aprendi que há uma grande liberdade em deixar ir. Construir uma vida em um novo país não acontece do dia para a noite. Ou mesmo em um ano. Para uma pessoa que gosta de ter reconhecimento rápido, na Suécia é preciso ter muita paciência porque demora. Mas, as coisas são o que são. Eu sei que vou encontrar o meu caminho, apesar dos desafios, porque eu sempre achei meu caminho e porque eu tenho uma missão para fazer a minha nova vida na Suécia um sucesso.

Vi ses… hej då! 😉

8 pensamentos

  1. Reflexões filosóficas; isso demonstra alta capacidade de observação e discernimento que, por sua vez, leva a uma maior possibilidade de grande aproveitamento vivencial. Parabéns e que isso a leve ao Nirvana.

    1. A Suécia é um lugar muito bom de se viver, mas não existe lugar perfeito, tá?
      Vou torcer para que um dia você tenha a oportunidade de visitar o país, principalmente no verão.
      Muáh! 😉

    1. Thais, muito obrigada pelo carinho e feedback.
      Fico meeeega feliz que você tenha se identificado.
      Um super beijo. 😉

  2. O aprendizado diário de viver! Parabéns pela reflexão, vivemos e aprendemos tudo diariamente. Tenho certeza que o caminho certo é sempre da vida equilibrada (Lagom).!!! 🥰

    1. Oi Alice!
      Tudo nessa vida tem altos e baixos, né? E morar fora também faz parte dessa montanha-russa de sentimentos.
      Vida equilibrada é tudo.
      Valeu pelo carinho. Grande beijo. Muáh! 😉

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